IMAGEM: VIRTUE MARINE
Dados da ITF mostram que o abandono de navios e marinheiros atingiu níveis recordes, com os marinheiros indianos sendo os mais afetados, com mais de 1.000 abandonados em um total de mais de 6.000 em 2026.
O abandono de marinheiros atingiu níveis recordes em 2025, de acordo com novos dados compilados pela Federação Internacional dos Trabalhadores em Transportes (ITF), com 6.223 marinheiros abandonados em 410 navios.
O abandono de marinheiros está em crise, com os dados marcando o sexto ano consecutivo em que o número de embarcações em que ocorreram abandonos bateu recordes e o quarto ano consecutivo em que o número total de marinheiros abandonados bateu recordes: os números representam um aumento de 31% nos abandonos de navios em comparação com 2024 e um aumento de 32% no abandono de marinheiros.
Os dados da ITF, que serão submetidos em um relatório à Organização Marítima Internacional (IMO) antes de sua discussão em uma reunião do comitê jurídico este ano, também mostram que os marítimos tinham direito a um total de US$ 25,8 milhões em 2025 como consequência dos abandonos. Desse total, o ITF recuperou e devolveu US$ 16,5 milhões aos marítimos.
"Todos os dias, em todo o mundo, os marítimos enfrentam violações horríveis de seus direitos humanos e trabalhistas, tudo para que empresas oportunistas possam lucrar rapidamente às suas custas. É muito claro que este é um problema sistêmico na indústria – e isso significa que precisamos que toda a indústria se una aos marítimos e seus sindicatos para dizer 'basta' e agir em conjunto para acabar com essa crise."
O abandono de marítimos é definido pela IMO (Organização Marítima Internacional) sob três critérios: não arcar com os custos de repatriação do marítimo; deixar o marítimo sem a manutenção e o apoio necessários; romper unilateralmente os laços com o marítimo, incluindo a falta de pagamento dos salários contratuais por um período de pelo menos dois meses. A IMO e a Organização Internacional do Trabalho (OIT) mantêm um banco de dados conjunto sobre abandono de marítimos: dos 410 abandonos registrados no ano passado, a ITF (Federação Internacional de Marítimos) relatou 400 (98%).
Nacionalidades dos marítimos, locais de abandono
Os marinheiros indianos foram o grupo nacional mais afetado em 2025, assim como em 2024, com 1.125 marinheiros abandonados. No final de 2025, o governo indiano anunciou que medidas de "lista negra" seriam tomadas para proteger os marinheiros de navios com histórico de abandonos repetidos e outras práticas abusivas.
Os marinheiros filipinos foram os segundos mais afetados, com 539 abandonados, seguidos pelos sírios, com 309 abandonados.
A região com maior índice de abandono foi o Oriente Médio, seguida pela Europa. Os dois países onde ocorreram mais abandonos de navios – os países com o maior número de embarcações abandonadas – ambos com índices significativamente maiores do que qualquer outro país, foram a Turquia (61) e os Emirados Árabes Unidos (54).
Bandeiras de Conveniência
Navios com bandeiras de conveniência (FOCs) figuram entre os mais abandonados: 337 navios abandonados em 2025 – 82% do total – ostentavam bandeiras de FOCs. A ITF estima que cerca de 30% da frota global de 100.000 navios mercantes operem sob bandeiras de FOCs.
Assim como em 2024, o Panamá, um país com bandeira de conveniência, permanece o Estado de bandeira com o maior número de abandonos (68, contra 43 em 2024), enquanto o número de abandonos sob bandeira desconhecida mais que dobrou (46, contra 20 em 2024).
A ITF realiza uma campanha sobre bandeiras de conveniência há mais de 75 anos e há muito tempo alerta para a ameaça aos direitos dos marítimos e para as atividades ilegais e ilícitas facilitadas pelo sistema de FOCs. Essa situação tornou-se mais amplamente conhecida nas últimas semanas por meio de operações realizadas contra navios-tanque de frotas paralelas que praticam a troca de bandeiras.
A ITF também realiza campanhas sobre bandeiras de conveniência há mais de 75 anos e há muito tempo alerta para a ameaça aos direitos dos marítimos e para as atividades ilegais e ilícitas possibilitadas pelo sistema de FOCs. Essa questão tornou-se mais amplamente compreendida nas últimas semanas por meio de operações realizadas contra navios-tanque de frotas paralelas que praticam a troca de bandeiras. O secretário-geral da ITF, Stephen Cotton, disse: "Quantos mais marinheiros terão que passar pelo sofrimento do abandono até vermos as mudanças que sabemos serem necessárias para acabar com essa prática vergonhosa?"
“Em 2025, testemunhamos mais uma vez o pior ano já registrado em termos de abandono de marítimos. Mas esta não é apenas uma questão de números; são as pessoas – os trabalhadores – que mantêm nossa economia em movimento, sendo forçadas a situações absolutamente desesperadoras, longe de casa e, muitas vezes, sem nenhuma solução clara à vista.
Como temos afirmado há muito tempo, as soluções para o abandono residem na responsabilização da indústria naval, garantindo que os armadores não possam se esquivar de suas responsabilidades. A Organização Marítima Internacional deve receber mais poder para desempenhar um papel de coordenação na erradicação do abandono.”
A ITF está solicitando que as seguintes medidas sejam tomadas para combater o abandono de marítimos:
Obrigatoriedade de os Estados de bandeira registrarem o beneficiário final de um navio, incluindo seus dados de contato, como pré-requisito para o registro.
Criação de listas negras nacionais de navios para proteger os marítimos de embarcações com envolvimento repetido em casos de abandono, seguindo o exemplo da Direção-Geral de Navegação da Índia.
Investigações governamentais sobre o uso de bandeiras de conveniência, como as que estão em andamento nos EUA.
Estatísticas de abandono em 2025:
As tabelas a seguir mostram: marítimos abandonados por nacionalidade em 2025; abandonos de navios por Estado de bandeira em 2025; Seguradoras que cobrem navios abandonados em 2025.
Seguradoras do Estado de Bandeira dos Marítimos
Índia: 1.125
Panamá: 68
Desconhecido: 192
Filipinas: 539
Desconhecido: 46 Hydor: 23
Síria: 309
Tanzânia: 41
Maritime Mutual: 20
Indonésia: 274 São Cristóvão: 40
Clube dos Armadores: 19
Ucrânia: 248
Comores: 34
Turco P&I: 14
Azerbaijão: 203
Palau: 21
Al-Bahriah: 13
Paquistão: 179
Irã: 18
Clube Americano: 11
Venezuela: 144
Libéria: 17
Londres P&I: 9
Egito: 130
Rússia: 123
Serra Leoa: 11
Marítimos:
Um total de 4.595 marítimos solicitaram assistência do Fundo de Assistência aos Marítimos (ITF) em 2025 – observando que nem todos os marítimos abandonados solicitam assistência e que nem todos os pedidos de assistência se referem a abandono.
Os marítimos tinham direito a um total de USD 25,8 milhões por abandono em 2025.
A ITF recuperou USD 16,5 milhões, restando USD 9,3 milhões a serem recuperados.
A ITF acompanha o número total de marítimos abandonados desde 2022 – e a cada ano, desde então, esse número tem aumentado:
Número de marítimos abandonados
2025 6.223
2024 4.726
2023 1.983
Navios:
• A ITF relatou 400 abandonos de navios, de um total de 410 (98%), em 2025. Destes, em 1º de janeiro de 2026: 163 foram resolvidos; 67 estão em disputa; 5 estão inativos; e 176 permanecem sem solução.
• 337 abandonos de navios ocorreram em embarcações navegando sob bandeiras de conveniência.
• Navios de carga geral são o tipo de embarcação mais abandonado, representando 164 dos 410 (40%).
| ANO | Número de navios abandonados |
| 2025 | 410 |
| 2024 | 312 |
| 2023 | 132 |
| 2022 | 118 |
| 2021 | 95 |
| 2020 | 85 |
| 2019 | 42 |
| 2018 | 38 |
| 2017 | 64 |
| 2016 | 20 |
Distribuição geográfica:
Região Total de abandonos País com maior número de navios abandonados
Europa 122
Turquia 61
Oriente Médio 152
Emirados Árabes Unidos 54
Ásia-Pacífico 70
Índia 16
África 39
Senegal 6
América do Norte 0 n/d
América Latina e Caribe 20
Venezuela 6
Relatados no mar 7 n/d
Número de abandonos de navios em 2025
Turquia 61
Emirados Árabes Unidos 54
Arábia Saudita 21
Egito 20
Irã 20
Índia 16
China 13
Omã 10
Grécia 8
Indonésia 8
Bandeiras de Conveniência:
337 embarcações abandonadas em 2025 – 82% do total – ostentavam bandeiras de conveniência.
De acordo com o direito internacional, os navios devem ser registrados em um único país, mesmo que frequentemente operem em águas internacionais. A Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar exige que haja um “vínculo genuíno” entre o navio e o Estado de bandeira. Na realidade, esses “vínculos genuínos” entre navios e bandeiras muitas vezes não existem.
Uma embarcação com “bandeira de conveniência” é aquela que ostenta a bandeira de um país diferente do país de propriedade, adotando, ao mesmo tempo, as regulamentações estabelecidas por essa bandeira. A origem do sistema remonta à United America Line, que utilizou a bandeira do Panamá para contornar a proibição na década de 1920.
As bandeiras de conveniência oferecem aos países sem indústria naval própria uma maneira de ganhar dinheiro fácil. O país pode criar um registro de navios e cobrar taxas dos armadores, enquanto mantém padrões reduzidos de segurança e bem-estar da tripulação e, muitas vezes, não cumpre as responsabilidades de um verdadeiro Estado de bandeira. O verdadeiro proprietário do navio (o que a ITF chama de "beneficiário final") se beneficia por ter sua identidade oculta e adotar os padrões regulatórios, muitas vezes deficientes, da bandeira, que também podem incluir a ausência de restrições à nacionalidade da tripulação. Em muitos casos, essas bandeiras nem sequer são operadas a partir do país em questão.
Em 2025, os 130 inspetores da ITF em mais de 109 portos em 55 países realizaram mais de 9.000 inspeções de navios com bandeiras de conveniência. Eles recuperaram mais de US$ 45,2 milhões em salários devidos. Dessas inspeções, 4.074 foram em navios não cobertos por um acordo da ITF: estes foram responsáveis pela maior parte dos salários recuperados, mais de US$ 31,8 milhões.
FONTE: ITF