No Brasil, o impacto será sentido principalmente na Hidrovia do Madeira e na “Hidrovia” do Amazonas, onde houve restrições em períodos recentes, com especial atenção para os recordes de 2023 e 2024. Armadores internacionais que navegam na hidrovia do Amazonas já começam a agravar seus preços. Como exemplo, em 06/08/2026, a MSC anunciou uma taxa de águas baixas (LWS – low water surcharge) de US$ 1400 por contêiner ou US$ 1900 por contêiner reefer nas importações para Manaus, por conta da previsão de seca na região. A Maersk também anunciou uma taxa de US$ 1228 para cada contêiner.
Estes sobrecustos na operação logística internacional são, em certa medida, inevitáveis, pois as embarcações possuem um alto custo operacional e precisam compensar as restrições de calado nas suas operações, ao dividir seu custo total para uma capacidade menor nas embarcações, que trafegarão com menos carga para poder transitar nas mesmas hidrovias usando uma lâmina d’água menos profunda. Esta compensação de custos encarece o transporte. A construção de sistemas logísticos mais resilientes vira um problema de grande relevância em regiões onde a água comanda a logística, como é o caso da Amazônia, que é a maior bacia hidrográfica do mundo.
Há ainda o lado da oferta, como exemplo, o Jornal The Guardian afirmou que “o ‘Super’ El Niño pode causar um choque global nos preços dos alimentos que dure até 2028”, destacando a outra dimensão do problema que serão as colheitas afetadas pelo ciclo climático, gerando aumento da inflação já alimentada pela guerra contra o Irã. O Deutsche Bank Research Institute publicou um texto assinado por Henry Allen destaca que o momento atual é particularmente negativo por conta dos outros choques logísticos do mundo, pois eles fazem com que se acumulem impactos de custos.
Por fim, o Índice de Frete Conteinerizado atingiu 3.205,97 pontos em 07/08/2026 e está 115,21% acima do ano passado, segundo negociações em um contrato por diferença (CFD) que acompanha o mercado de referência dessa mercadoria, conforme registro do Trading Economics. Enquanto isso, o Brasil tem tirado recursos dos estudos de suas hidrovias. Há uma enorme oportunidade na pesquisa e monitoramento das hidrovias da Amazônia. Precisamos também considerar obras nestes rios para que eles se transformem de fato em hidrovias, o que retiraria as aspas que coloquei em “hidrovia”. Veremos se o Plano Nacional de Logística que será lançado em 12/08/2026 considerará estas perspectivas.
Augusto Cesar Barreto Rocha – Professor da UFAM.
FONTE: GGN