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PEC 221/19 é aprovada com ampla maioria em 2 turnos e marca maior mudança constitucional nas relações de trabalho desde 1988. Embate expôs choque entre projeto de proteção social e discurso neoliberal sobre “flexibilização” trabalhista

A Câmara dos Deputados protagonizou, nesta terça-feira (27), uma das votações mais simbólicas desde a promulgação da Constituição de 1988 ao aprovar, em primeiro e segundo turnos, a PEC 221/19, que reduz a jornada semanal de trabalho de 44 para 40 horas, extingue a escala 6x1 e estabelece a jornada 5x2 como referência nacional, sem redução salarial. A proposta agora vai ao exame do Senado.

O texto que vai ao exame Senado é um substitutivo do deputado Leo Prates (Republicanos-BA) para a PEC do deputado Reginaldo Lopes (PT-MG), que previa jornada de 36 horas, e para a PEC 8/25, da deputada Érika Hilton (PSol-SP), de igual jornada em 4 dias.

A proposta foi aprovada em primeiro turno por 472 votos favoráveis e 22 contrários; no segundo turno, o placar foi de 461 votos a 19. Antes da deliberação em plenário, a comissão especial aprovou o parecer do relator, deputado Leo Prates, por 34 votos a 4.

O plenário da Casa viveu sessão carregada de simbolismo político, social e ideológico. Depois de décadas de tramitação de propostas semelhantes e de sucessivas derrotas históricas do movimento sindical, os deputados aprovaram a PEC (Proposta de Emenda à Constituição) 221/19, do deputado Reginaldo Lopes, considerada pelas centrais sindicais e por partidos de esquerda a maior conquista trabalhista desde a redução da jornada de 48 para 44 horas na Constituinte de 1988.

A PEC reduz progressivamente a jornada semanal máxima para 40 horas e extingue a escala 6x1, substituindo-a pela escala 5x2, sem redução salarial. O texto ainda prevê regulamentações específicas para categorias com regimes diferenciados, como enfermagem, aeronautas, trabalhadores embarcados e segmentos submetidos a jornadas especiais.

O resultado consolidou ampla maioria suprapartidária construída pelo governo do presidente Lula (PT), pelas centrais sindicais e por setores do centro político. O acordo articulado pelo presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e pelo relator, deputado Leo Prates (Republicanos-BA) permitiu a formação de bloco favorável robusto, isolando a extrema-direita e setores ultraliberais que tentaram barrar a proposta.

Disputa entre 2 projetos de País

O debate em plenário extrapolou a discussão técnica sobre jornada de trabalho. O confronto revelou 2 visões antagônicas sobre o mundo do trabalho, produtividade, Estado e direitos sociais.

De um lado, parlamentares governistas, sindicalistas e partidos de esquerda defenderam a PEC como medida civilizatória, humanitária e de justiça social. Do outro, deputados da oposição neoliberal e bolsonarista classificaram a proposta como “eleitoreira”, “populista” e potencialmente geradora de desemprego, inflação e informalidade.

A deputada Jandira Feghali (PCdoB-RJ) resgatou a trajetória histórica da reivindicação, e lembrou que a luta pela jornada de 40 horas remonta à Conclat de 1981 e atravessou décadas de mobilização sindical. Segundo ela, o Parlamento respondeu finalmente “à luta histórica das mulheres e homens trabalhadores deste País”.

A parlamentar enfatizou que mais de 38 milhões de trabalhadores formais cumprem jornadas superiores a 40 horas e destacou especialmente o impacto da sobrecarga sobre as mulheres, que acumulam trabalho remunerado e doméstico. “A jornada das mulheres é 7x0”, afirmou.

No mesmo sentido, a deputada Alice Portugal (PCdoB-BA) classificou a votação como “a luta do nosso tempo”, associando a redução da jornada à preservação da saúde física e mental dos trabalhadores. Citou casos de adoecimento, depressão, exaustão e doenças ocupacionais provocadas pela intensificação do trabalho.

O deputado Renildo Calheiros (PCdoB-PE) afirmou que o Brasil vive historicamente sob o comando da elite econômica “que governa de costas para o povo” e comparou os argumentos atuais contra a PEC às resistências históricas contra férias, salário mínimo e 13º salário.

Protagonismo das mulheres

Grande parte da defesa da proposta foi conduzida por parlamentares mulheres, que transformaram o debate sobre jornada em discussão sobre gênero, cuidado e desigualdade social.

A deputada Dandara (PT-MG) fez um dos discursos mais emocionados da sessão ao relatar a própria experiência como trabalhadora do comércio. “Eu conheço o pé inchado de tanto ficar em pé durante 8, 10, 12 horas”, declarou.

Ela vinculou a pauta ao cotidiano das mulheres periféricas e negras, argumentando que a escala 6x1 retira das trabalhadoras o direito ao descanso, à convivência familiar e até ao sonho de ascensão social.

A deputada Jack Rocha (PT-ES) definiu a proposta como “causa humanitária” e sustentou que a redução da jornada representa a recuperação de direitos retirados após a Reforma Trabalhista e a Reforma da Previdência aprovadas durante os governos, respectivamente, de Temer (MDB) e Bolsonaro (PL).

A deputada Benedita da Silva (PT-RJ) resgatou a Constituinte de 1988 para lembrar que a luta pelas 40 horas já estava presente naquele período, quando o Congresso reduziu a jornada de 48 para 44 horas. “Passaram-se 38 anos para voltarmos a enfrentar esse debate”, afirmou.

Governo Lula transforma pauta sindical em agenda estratégica

A aprovação da PEC também consolidou politicamente o governo Lula (PT) com o movimento sindical e à base trabalhadora urbana. Líderes governistas destacaram reiteradamente o papel do presidente da República na construção do acordo político que viabilizou a votação.

O deputado Pedro Uczai (SC), líder do PT na Câmara, afirmou que a proposta nasceu da articulação entre o governo, o Parlamento e os sindicatos, sustentando que o presidente Lula transformou a pauta da redução da jornada em prioridade política.

O deputado Paulo Pimenta (PT-RS), líder do governo na Casa, classificou a escala 6x1 como “a representação mais cruel das relações de trabalho no País”, especialmente para mulheres submetidas às jornadas mais extensas e aos menores salários.

O discurso governista associou a PEC à agenda mais ampla de reconstrução de direitos sociais e trabalhistas após o ciclo de flexibilização iniciado com a Reforma Trabalhista de 2017.

Oposição fala em “engessamento”, desemprego e inflação

Os discursos contrários concentraram-se principalmente nas bancadas do Novo, PL e parte do PP. Todos foram discursos catastrofistas, do “fim do mundo”, do “fim do Brasil e da economia”.

A deputada Adriana Ventura (Novo-SP) afirmou que a proposta “engessa” o mercado de trabalho e ignora especificidades setoriais. Segundo ela, a jornada média brasileira já estaria abaixo de 40 horas graças a acordos coletivos, sem necessidade de alteração constitucional.

Os deputados Gilson Marques (Novo-SC), Marcel van Hattem (Novo-RS) e Bibo Nunes (PL-RS) defenderam a ideia de “flexibilização” e alegaram que a PEC poderá ampliar informalidade, desemprego e inflação.

Parte da oposição tentou deslocar o debate para ataques ao governo Lula, à política econômica e à corrupção. Houve ainda tentativas regimentais de retardar a votação por meio de questões de ordem e pedidos de anexação de propostas alternativas, como a PEC do “horário flexível”, defendida pelo PL.

Apesar da retórica neoliberal sobre liberdade contratual, parlamentares governistas acusaram a oposição de defender a “superexploração” do trabalho e de reproduzir argumentos historicamente utilizados contra direitos trabalhistas básicos.

Pressão das ruas e das redes

O avanço da PEC não pode ser compreendido sem a forte pressão social construída nos últimos meses. O movimento VAT (Vida Além do Trabalho), sindicatos, centrais sindicais e campanhas digitais transformaram o tema em uma das agendas de maior repercussão pública do ano.

O deputado Tarcísio Motta (PSol-RJ) destacou que a mobilização nas redes sociais foi decisiva para alterar a correlação de forças no Congresso.

Segundo ele, a extrema-direita tentou inicialmente impedir a tramitação da proposta, mas mudou parcialmente de discurso após perceber o apoio popular majoritário ao fim da escala 6x1.

Pesquisas de opinião citadas ao longo dos debates apontaram apoio expressivo da população à redução da jornada e à adoção da escala 5x2.

Novo marco nas relações de trabalho

A aprovação da PEC abre agora nova etapa de regulamentação infraconstitucional. O governo deverá encaminhar projetos complementares para disciplinar a transição, os regimes especiais e os impactos setoriais.

Embora setores empresariais ainda resistam à mudança, defensores da proposta argumentam que experiências internacionais demonstram que a redução de jornada pode elevar produtividade, reduzir adoecimento e ampliar a qualidade de vida.

Ao final da sessão, governistas celebraram a votação como “novo pacto civilizatório” nas relações de trabalho brasileiras. A oposição promete continuar a disputa no Senado, onde pretende apresentar propostas alternativas de flexibilização.

Independentemente do embate que ainda ocorrerá na chamada Casa revisora, a sessão desta terça-feira já entrou para a história política e trabalhista do País como o momento em que a Câmara rompeu, pela primeira vez em quase quatro décadas, a barreira constitucional das 44 horas semanais e decretou o fim da escala 6x1.

Veja o que muda com o fim da escala 6x1

TemaComo éComo pode ficar
Jornada de trabalho Limitada a oito horas por dia e 44 horas semanais Limitada a oito horas diárias e 40 horas semanais, com dois descansos semanais remunerados, sendo um deles preferencialmente aos domingos; no primeiro ano, o limite será de 42 horas semanais
Descanso semanal Repouso semanal remunerado, preferencialmente aos domingos Ficam garantidos dois dias de repouso semanal remunerado, sendo um deles preferencialmente aos domingos
Escala de trabalho e folgas A escala de trabalho não está determinada na Constituição; empresas podem organizar a escala até o limite de 44 horas semanais Texto prevê a escala de trabalho 5x2, mas mantém regimes especiais para determinadas categorias, conforme previsto em leis específicas, normas regulamentadoras, acordos e convenções coletivas
Hora extra Salário deve ser acrescido em 50% a cada hora a mais trabalhada, com limite de duas horas extras por dia Acordos e convenções coletivas poderão prever que, durante a transição, a jornada diária possa ter mais de oito horas para compensar a escala 5x2, sem que sejam pagas como extra
Trabalho aos domingos O trabalho aos domingos não é proibido e é, inclusive, permitido para algumas categorias consideradas essenciais. Se houver trabalho nesse dia sem compensação prevista em lei, norma ou convenção ou acordo coletivo, a hora de trabalho deverá ser paga em dobro A PEC mantém o domingo como um dia preferencial de descanso, mas não veta o trabalho neste dia, garantindo que categorias que precisem funcionar possam organizar suas escalas; vale a regra atual de compensação, que pode ser feita, inclusive, por banco de horas
Banco de horas O trabalho em domingos e feriados pode ser compensado por meio de banco de horas se houver acordo ou convenção coletiva prevendo a medida Não há nova regra prevista, e o banco de horas poderá ser adotado conforme as negociações entre empregadores e trabalhadores
Acordos e convenções coletivas A Constituição e a CLT (Consolidação das Leis do Trabalho) garantem que acordos e convenções coletivas podem prever arranjos diferentes de leis e normas, desde que respeitem a Constituição; é o acordado sobre o legislado, reforçado na reforma trabalhista de 2017 A PEC mantém que acordo ou convenção coletiva de trabalho podem prever compensação de horários e outros arranjos de jornada, desde que rerespeitados os limites reforçando o acordado sobre o legislado
Superempregados A reforma trabalhista de 2017 criou a figura do trabalhador hipersuficiente, que é aquele com diploma de nível superior e salário acima de dois tetos da Previdência Social; ele pode negociar diretamente com o empregador A PEC coloca na Constituição a figura do 'superempregado', que é o trabalhador com diploma de nível superior e com salário acima de dois tetos e meio da Previdência, o que dá R$ 21.888,88 hoje. Neste caso, o profissional não terá controle de jornada

FONTES: DIAP/FOLHA DE S.PAULO