IMAGEM: ACP/THE MARITIME EXECUTIVE
Canal do Panamá nomeia primeira administradora mulher em meio a desafios crescentes
O presidente do Panamá, José Mulino, anunciou na quinta-feira a decisão do Conselho de Administração da Autoridade do Canal do Panamá de nomear a primeira administradora da história dessa importante via navegável. A engenheira e atual vice-administradora, Ilya Espino de Marotta, assumirá oficialmente o cargo em 1º de outubro, em um momento crítico, em que a operação enfrenta aumento do tráfego e potenciais impactos do fenômeno climático El Niño e da pressão persistente dos Estados Unidos, após Donald Trump afirmar que a China controla as operações.
Engenheira naval formada pela Universidade Texas A&M, com mestrado em Engenharia Econômica pela Universidade Santa María La Antigua e formação executiva pelo INCAE e pela Kellogg School of Management, Espino de Marotta, segundo destaca a autoridade, foi selecionada após um processo de busca, consulta e avaliação que envolveu âmbito nacional e internacional. A autoridade ressalta que ela possui mais de 40 anos de experiência e é uma veterana de 35 anos no Canal do Panamá, tendo supervisionado grandes projetos, incluindo os programas de expansão.
Espino de Marotta assume o cargo em meio ao aumento do volume de cargas no Canal do Panamá. A associação comercial do setor, BIMCO, destaca que as interrupções no Oriente Médio e o fechamento do Estreito de Ormuz estão contribuindo para o aumento do volume de cargas no Canal do Panamá. Com o aumento dos preços do petróleo e do gás, as exportações americanas estão crescendo e a Ásia busca compensar a queda por meio das importações dos EUA.
A BIMCO destaca um aumento de 8% nas travessias diárias no Canal do Panamá em comparação com o ano anterior, com uma média diária atual de 38 embarcações, impulsionada pelo setor de petroleiros. Nas últimas cinco semanas, a BIMCO relata um aumento de 16% no tráfego no Canal do Panamá em relação ao ano anterior.
“A capacidade máxima diária do Canal do Panamá é de cerca de 36 a 40 trânsitos, o que significa que atualmente está operando próximo da capacidade máxima”, afirma Filipe Gouveia, Gerente de Análise de Transporte Marítimo da BIMCO. “O recente aumento na demanda inflacionou os preços dos leilões e causou um aumento de 50% no tempo de espera em relação ao ano anterior, que agora está em uma média de 47 horas.”
O painel online da Autoridade do Canal do Panamá mostra um total de 83 embarcações com reserva confirmada e 10 embarcações sem reserva aguardando embarque em 21 de maio. Segundo o painel, o tempo médio de espera para embarcações sem reserva é de 3,9 dias no sentido norte e 8 dias no sentido sul.
O aumento repentino no volume também fez com que os preços dos espaços que a AMP leiloa para navios sem reservas disparassem. No início do mês, corretores relataram um preço recorde de US$ 4 milhões pago em leilão por um espaço, enquanto a média está em torno de US$ 400.000, quase três vezes maior que a média antes do início da guerra no Oriente Médio.
A BIMCO destaca que navios porta-contêineres, navios de GLP, petroleiros e graneleiros representam aproximadamente três quartos dos trânsitos. O aumento nos embarques de energia, observa a empresa, agrava a situação, já que muitos desses navios operam no mercado spot sem cronogramas que permitam reservas antecipadas.
“Olhando para o futuro, a demanda por trânsitos pelo Canal do Panamá poderá permanecer alta enquanto persistirem as interrupções no Estreito de Ormuz e as exportações de energia dos EUA se mantiverem robustas. No curto prazo, o congestionamento e os tempos de espera poderão permanecer elevados e aumentar ainda mais no médio prazo”, relata a BIMCO.
O primeiro desafio virá em junho. A partir da meia-noite do dia 9 de junho, o canal iniciará um processo de manutenção a seco na pista leste, na eclusa de Gatun, com previsão de duração até o dia 17 de junho. Durante esse período, o número de vagas para embarcações será reduzido para apenas 16, e a autoridade responsável alerta que a passagem pela eclusa levará mais tempo, já que as embarcações compartilharão a pista oeste. Serão oferecidas 10 vagas a menos do que o normal durante o período de manutenção.
Também se aproxima, com previsão de início para este mês ou o próximo, o fenômeno meteorológico conhecido como El Niño, que provavelmente reduzirá as chuvas no istmo. A autoridade destaca que está mais bem preparada do que na temporada de 2023-2024, quando a escassez de água a obrigou a reduzir o número de embarcações em trânsito para 22 e a diminuir a calado máximo.
O relatório indica que o monitoramento começou no final de 2025 e que os níveis de água no Lago Gatun, principal reservatório das operações, se mantiveram em patamares historicamente altos. Apontam também para uma estação chuvosa excepcionalmente intensa, que contribuiu para o fortalecimento das reservas hídricas nos lagos, além da manutenção de medidas de economia de água nas eclusas. Atualmente, não se prevê a necessidade de renovar as restrições em 2026, mas a situação exige monitoramento e gestão cuidadosos.
A longo prazo, Espino de Marotta provavelmente enfrentará novas pressões da administração Trump, que também exigiu livre passagem para navios do governo americano. A autoridade portuária também planeja o desenvolvimento de dois novos terminais portuários, um em cada extremidade do canal, com a licitação prevista para os próximos meses. O anúncio foi feito para atender às preocupações dos EUA antes que os tribunais panamenhos cancelassem a concessão da CK Hutchison. O país permanece envolvido em uma batalha judicial ou arbitral com a empresa de Hong Kong, enquanto também planeja abrir licitação para novas concessões para operar os dois terminais existentes.
A Autoridade do Canal do Panamá anunciou outros planos de expansão, incluindo um gasoduto e melhorias no corredor logístico. Possui também um programa de longo prazo para aprimorar seu sistema de reservatórios e a gestão hídrica.
FONTE: THE MARITIME EXECUTIVE
