IMAGEM: DATAMAR NEWS

Singapura continua a ser o maior centro marítimo mundial, de acordo com o Xinhua Baltic International Shipping Centre Development Index (ISCDI). Xangai é agora o número dois, à frente de Londres.

A edição de 2026 do ICSCDI não traz novidades no elenco dos 20 maiores centros marítimos mundiais, mas tem mexidas importantes, desde logo, na primeira metade da tabela

Pelo 13.º ano consecutivo — tantos quantos conta o Índice — Singapura ocupa a primeira posição, mas agora Xangai é segundo, tendo superado Londres, tradicional vice-líder (só não o foi em dois anos). Hong Kong e Dubai mantêm as suas posições e fecham o quinteto principal

Mas não foi apenas Londres a perder posições. Roterdã, que era sexto, foi superado por NingboZhoushan, e Atenas/Pireu e Hamburgo, desceram para nono e décimo, respectivamente, ultrapassados por New York/New Jersey. 

O ISCDI avalia os centros de navegação com base em três critérios principais ponderados: os inputs portuários representam 20% do total, os serviços empresariais 50% e os inputs de contexto gerais que abrangem transparência governamental, tarifas aduaneiras, desempenho logístico e a extensão do governo eletrónico e administração os restantes 30% da pontuação.

No caso de Singapura, os autores do Índice destacam o crescimento na movimentação de contêineres (em que é número dois mundial, só superadoo por Xangai), o recorde da movimentação de navios (em termos de GT), a consolidação como líder mundial no bunkering com vendas de 56,77 milhões de toneladas (e com uma forte aposta nos novos combustíveis) e o crescimento de 27% da tonelagem inscrita no seu Registro.

Merece igualmente realce os lançamentos do primeiro Gémeo Digital Marítimo da cidade-estado (um modelo virtual do porto que integra dados em tempo real de navios, operações e sensores ambientais para melhorar a tomada de decisões e apoiar o planeamento de resposta a emergências) e do MariOT, o primeiro banco de testes de cibersegurança marítima de nível industrial do mundo. 

Ao longo do ano de 2025, mais de 35 empresas marítimas abriram ou expandiram as suas atividades em Singapura, elevando para mais de 200 o número de grupos internacionais de shipping ali sedeados, contribuindo com mais de 5 mil milhões de dólares de Singapura (cerca de 340 milhões de euros) para a economia local.

O ranking dos principais centros marítimos mundiais em 2025, de acordo com o ISCDI, é o seguinte:

1.º Singapura

2.º Xangai

3.º Londres

4.º Hong Kong

5.º Dubai

6.º Ningbo-Zoushan

7.º Roterdã

8.º New Yorl/New Jersey

9.º Atenas/Pireu

10.º Hamburgo

11.º Guangzhou

12.º Qingdao

13.º Houston

14.º Busan

15.º Tóquio

16.º Antuérpia-Bruges

17.º Tianjin

18.º Shenzhen

19.º Los Angeles

20.º Vancouver

FONTE: TRANSPORTES&NEGÓCIOS

IMAGEM: Marcello Casal Jr./Agência BrasiL

O TCU (Tribunal de Contas da União) determinou na última quarta-feira (1º) que o DNIT (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes) não pode retomar a licitação para a dragagem de manutenção do Rio Tapajós antes da obtenção da LP (Licença Prévia) e da realização da CPLI (Consulta Prévia, Livre e Informada) às comunidades potencialmente afetadas pelo empreendimento. 

A decisão tende a produzir efeitos que vão além do contrato de R$ 74,8 milhões analisado pela corte. Com a definição, se torna improvável que o serviço possa ser contratado e executado ainda neste ano – justamente quando o setor volta a alertar para os riscos de uma nova seca severa na Amazônia. A decisão também reforça um entendimento do tribunal sobre o momento em que as exigências socioambientais devem ser cumpridas em projetos públicos de infraestrutura.

O julgamento ocorreu em um cenário de discussões sobre os direitos assegurados pela Convenção 169 da OIT (Organização Internacional do Trabalho), da qual o Brasil é signatário e que determina que povos indígenas e comunidades tradicionais sejam consultados previamente, de forma livre e informada, sempre que medidas administrativas ou legislativas possam afetá-los diretamente.

Nos últimos anos, projetos ferroviários, rodoviários, hidroviários e portuários passaram a enfrentar questionamentos envolvendo justamente a realização das consultas às populações tradicionais. Ao analisar o caso do Tapajós, o TCU voltou a afirmar que esse procedimento não pode ser tratado apenas como uma etapa da execução contratual, mas deve integrar o próprio planejamento da contratação pública. Procurado pela Agência iNFRA para comentar os impactos da decisão, o DNIT informou que “se manifestará apenas nos autos do processo”.

Em fevereiro deste ano, após protestos de povos indígenas e de outros grupos sociais contra o governo sobre a suposta falta das consultas previstas na Convenção 169, houve a revogação do decreto sobre a política de concessão de hidrovias em rios da região amazônica. Também em razão dessas manifestações, a licitação de obra pública para a dragagem no Tapajós foi suspensa pelo governo.  

Rio Tapajós
O processo analisado na quarta-feira pelos ministros do TCU teve origem em uma denúncia apresentada contra o Pregão Eletrônico 90.515/2025, conduzido pelo DNIT, destinado à contratação da empresa responsável pela execução do Padma (Plano Anual de Dragagem de Manutenção Aquaviária) na hidrovia do Rio Tapajós, entre Santarém e Itaituba, no Pará.

Os questionamentos envolviam três pontos principais: a ausência de EIA/Rima (Estudo e Relatório de Impacto Ambiental), a publicação do edital antes da obtenção da licença ambiental e a inexistência de consulta prévia às comunidades indígenas, ribeirinhas e tradicionais potencialmente afetadas.

O tribunal rejeitou apenas o primeiro argumento, com a unidade técnica e o relator, ministro Walton Alencar Rodrigues, afirmando que, por se tratar de dragagem de manutenção destinada apenas à preservação das condições atuais de navegabilidade, não há necessidade de elaboração de EIA/Rima. A atividade foi caracterizada como um serviço contínuo de conservação da hidrovia existente, sem implantação de nova infraestrutura ou expansão da atividade econômica.

Em relação aos demais pontos, porém, o entendimento foi oposto. Walton concluiu que o DNIT descumpriu a Lei 14.133/2021 ao publicar o edital antes da obtenção da Licença Prévia exigida para obras e serviços de engenharia quando o licenciamento é responsabilidade da própria administração pública. Segundo o relator, a justificativa apresentada pelo departamento – de conduzir simultaneamente a licitação e os estudos ambientais para ganhar eficiência – não encontra respaldo na legislação.

“O art. 115 […] da Lei 14.133/2021 é cogente e inflexível”, registrou o ministro no voto. O TCU também considerou procedente a denúncia quanto à ausência da CPLI. Para Walton, caso exista potencial de impacto sobre comunidades tradicionais, a consulta não pode ser postergada para depois da contratação.

“O direito à CPLI não pode ser relegado a momento posterior ou tratado como mera condição de execução”, afirmou no voto. Apesar disso, a corte não acolheu a proposta da área técnica para anular definitivamente o certame. Como o próprio DNIT já havia suspendido administrativamente a licitação em razão das mobilizações sociais na região e das tratativas conduzidas com acompanhamento do MPF (Ministério Público Federal), o tribunal decidiu apenas determinar que o pregão permaneça suspenso até o cumprimento das exigências ambientais.

A Lei 14.133/2021, que reformulou as regras das licitações públicas e passou a disciplinar expressamente a relação entre contratações de obras e serviços de engenharia e o licenciamento ambiental, determina que, sempre que a obtenção da licença ambiental for responsabilidade da administração pública, a manifestação ambiental ou a LP, quando cabível, deve ser obtida antes da publicação do edital, o que embasou a decisão do TCU. 

Sem regulamentação
Embora prevista no ordenamento jurídico brasileiro desde 2003, quando a Convenção 169 da OIT passou a produzir efeitos no país, a consulta prévia continua sem regulamentação específica. O tratado estabelece que povos indígenas e comunidades tradicionais devem ser consultados sempre que medidas administrativas ou legislativas possam afetá-los diretamente, mas não define como esse procedimento deve ocorrer em cada país signatário. Coube às legislações nacionais estabelecer regras complementares, algo que o Brasil ainda não fez.

Na prática, a ausência dessa regulamentação abriu espaço para interpretações distintas entre órgãos ambientais, Ministério Público, comunidades tradicionais, empreendedores e tribunais. Parte do governo sustenta que as consultas podem ocorrer dentro do próprio processo de licenciamento ambiental, antes da emissão da licença de instalação. Já representantes das comunidades tradicionais defendem que elas precisam ocorrer desde as fases iniciais, antes mesmo de o Estado consolidar a viabilidade do empreendimento.

Efeito sobre a logística

A decisão do TCU ocorre justamente quando cresce a preocupação do setor de navegação com uma possível repetição da crise logística enfrentada durante as últimas secas amazônicas. Como mostrou recentemente a Agência iNFRA, armadores estimam que aproximadamente R$ 300 milhões foram gastos pelo governo federal nos últimos três anos em dragagens emergenciais realizadas quando a estiagem já havia provocado restrições de carga e impactos ao abastecimento da região Norte.

Segundo a Abac (Associação Brasileira dos Armadores de Cabotagem), cerca de R$ 100 milhões por ano foram destinados a esse tipo de intervenção, mas boa parte chegou tarde demais para evitar os prejuízos. A entidade defende que as dragagens estejam concluídas até agosto, antes da intensificação da vazante. 

No primeiro bimestre deste ano, o Rio Tapajós se consolidou como um dos principais corredores logísticos do Arco Norte, batendo recordes de movimentação de cargas e avanço das operações hidroviárias na região amazônica. De acordo com dados do setor, a hidrovia transportou 16,8 milhões de toneladas em 2025, alta de 14,3% em relação ao ano anterior. Segundo o governo federal, o desempenho reforça o papel estratégico do transporte fluvial para o escoamento da produção agrícola e o abastecimento do oeste do Pará.

FONTE: AGÊNCIA INFRA

IMAGEM: VANESSA RODRIGUES/AT

O primeiro navio porta-contêineres movido a etanol produzido no Brasil tem previsão de zarpar na manhã desta terça-feira do porto de Santos, um teste inédito para a indústria de biocombustíveis do país e um passo fundamental para a redução das emissões no transporte marítimo.

O navio CMA CGM Iron , adaptado para funcionar com metanol, etanol e combustível fóssil convencional, seguirá para a Ásia, fazendo escalas no Sri Lanka e em Singapura antes de chegar ao seu destino final, a China. O navio transporta diversos tipos de carga.

“O Brasil é estratégico para nós e para o resto do mundo”, disse Neusa Marcelino, CEO da CMA CGM no Brasil, gigante francesa do setor de transporte marítimo, acrescentando que a operação de abastecimento com etanol é um passo audacioso nos esforços para tornar o transporte marítimo mais limpo. 

O uso do etanol como combustível para navios cria um mercado potencialmente enorme para fabricantes de biocombustíveis e agricultores no Brasil, o segundo maior produtor mundial de etanol depois dos EUA, à medida que as empresas aumentam a capacidade de produção local desse combustível renovável.

A adoção generalizada desse combustível no transporte marítimo poderia levar a uma redução substancial das emissões globais. Seria também uma grande vantagem para os agricultores brasileiros, já que o etanol do país é produzido principalmente a partir da cana-de-açúcar e, mais recentemente, do milho cultivado pela potência agrícola brasileira.

Segundo um estudo de 2020 da Organização Marítima Internacional, a indústria naval global é responsável por até 3% das emissões globais de gases de efeito estufa. Se o setor fosse um país, ocuparia o sexto lugar entre os maiores emissores do mundo, entre o Japão e a Alemanha,  de acordo  com o Banco Mundial.

A viagem inaugural ocorre enquanto a IMO se prepara para implementar uma estrutura global de emissões líquidas zero para o transporte marítimo. A diretiva do grupo foi aprovada em abril de 2025, mas a adoção formal foi adiada para dezembro deste ano após pressão dos EUA.

As tão aguardadas regras da IMO abririam caminho para que o etanol substituísse gradualmente o petróleo como combustível dominante no transporte marítimo e dariam origem a alternativas mais limpas.

Narciso Bertholdi, que integra os conselhos de administração de duas produtoras brasileiras de etanol de milho, afirmou que um possível apoio dos EUA às diretrizes aceleraria a adoção do etanol como combustível marítimo.

“Considere que a indústria naval consome aproximadamente 250 milhões de toneladas de combustível anualmente. Se apenas 10% desse volume fosse substituído por etanol, a demanda chegaria a 32 bilhões de litros (8,4 bilhões de galões) — praticamente o equivalente a todo o mercado brasileiro de etanol”, afirmou. 

Em maio, a IMO (Organização Marítima Internacional) removeu um  obstáculo fundamental  para o etanol brasileiro produzido a partir de milho da segunda safra, antes da introdução das diretrizes de emissões líquidas zero.

Um mês antes, a mineradora brasileira Vale  encomendou novos navios Guaibamax movidos a etanol  a um estaleiro chinês. A entrega está prevista para 2029 e eles poderão ser os primeiros a utilizar etanol puro para transportar minério de ferro em navios oceânicos, segundo a empresa.

A CMA CGM, empresa responsável pela embarcação que fez sua viagem inaugural ao Brasil, planeja ter cerca de 200 navios adaptados para operar com combustíveis renováveis ​​até 2031. Atualmente, a empresa opera uma frota de 700 embarcações.

Segundo o  Conselho Mundial de Navegação (World Shipping Council) , cerca de 440 navios porta-contentores e transportadores de veículos com dupla alimentação (combustíveis renováveis ​​ou com baixas emissões) estão atualmente em operação em todo o mundo. Esse número representa um aumento em relação aos 267 navios desse tipo em março de 2025. Além disso, havia 1.204 navios porta-contentores e transportadores de veículos com dupla alimentação encomendados ou entregues globalmente até março, um aumento em relação aos 83 de cinco anos atrás, conforme dados do conselho.

De acordo com dados da UNICA, o Brasil produziu um total de 37 bilhões de litros de etanol na safra encerrada em março. 

Apesar disso, as empresas brasileiras continuam a expandir sua capacidade de produção de etanol de milho, sendo a demanda por energias renováveis ​​no transporte marítimo crucial para absorver a oferta adicional.

Ainda assim, as regulamentações globais de transporte marítimo terão que evoluir para tornar os biocombustíveis viáveis ​​para uso no setor, afirma Filippe Fernandez, diretor comercial para a América Latina da Bunker One, empresa de comercialização de combustíveis marítimos.

As regulamentações da União Europeia, que excluem os biocombustíveis de primeira geração à base de culturas como milho e cana-de-açúcar, representam um grande obstáculo, afirmou ele.

“Testar um combustível é uma coisa”, disse Fernandez. “Construir um mercado em torno dele é outra bem diferente.”

FONTE: Bloomberg LP

IMAGEM: PORTAL 93/DIVULGAÇÃO

O tema foi discutido nesta terça-feira durante a 68ª Cúpula de Chefes de Estado do Mercosul e Estados Associados, realizada em Assunção, com a participação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do ministro de Portos e Aeroportos, Tomé Franca.

O governo brasileiro e o Paraguai avançaram nas negociações para a concessão da Hidrovia do Rio Paraguai, considerada um dos principais corredores logísticos da América do Sul.

O tema foi discutido nesta terça-feira durante a 68ª Cúpula de Chefes de Estado do Mercosul e Estados Associados, realizada em Assunção, com a participação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do ministro de Portos e Aeroportos, Tomé Franca.

Com mais de 1,3 mil quilômetros em território brasileiro, a hidrovia liga Cáceres, em Mato Grosso, à foz do Rio Apa, na fronteira com o Paraguai, integrando um sistema de navegação que segue até Nueva Palmira, no Uruguai. O corredor é estratégico para o escoamento de minérios, grãos e produtos agropecuários produzidos no Centro-Oeste em direção aos mercados internacionais por meio da Bacia do Prata.

Durante a cúpula, o presidente Lula destacou a importância da Hidrovia Paraguai-Paraná para a integração regional e defendeu o fortalecimento da governança do sistema, baseado na cooperação, no diálogo e na liberdade de navegação entre os países da Bacia do Prata.

Segundo o ministro Tomé Franca, a iniciativa é uma das prioridades do Governo Federal e do Ministério de Portos e Aeroportos. Ele afirmou que a parceria entre os países é fundamental para garantir segurança jurídica e operacional ao projeto, além de ampliar a integração logística do Mercosul.

Em reunião bilateral com a ministra de Obras Públicas e Comunicações do Paraguai, Claudia Centurión, o ministro brasileiro reiterou a intenção de concluir, ainda em 2026, o acordo bilateral necessário para viabilizar a concessão dos trechos compartilhados da hidrovia. Após a formalização do entendimento, a expectativa é avançar na concessão dos serviços essenciais à navegação.

A ministra paraguaia informou que os dois países alinharam pontos considerados essenciais para o andamento das negociações, incluindo ajustes no modelo de concessão proposto pelo Brasil. Uma nova rodada de tratativas está prevista para a segunda quinzena de julho, quando deverá ser apresentada uma contraproposta brasileira acompanhada de um cronograma das próximas etapas.

Além das negociações, o Governo Federal também anunciou investimentos no fortalecimento da navegação interior. Entre eles está a destinação de R$ 4,32 bilhões, por meio do Fundo da Marinha Mercante (FMM), com apoio do BNDES, para a construção de 400 balsas mineradoras e 15 empurradores fluviais destinados ao transporte de minério pelos rios Paraguai e Paraná.

A expectativa é ampliar em cerca de 16% a frota nacional de transporte hidroviário de cargas, fortalecer a indústria naval brasileira e gerar aproximadamente 5,5 mil empregos diretos e indiretos. O governo brasileiro afirma que continuará trabalhando em conjunto com os países que compartilham a hidrovia para viabilizar a concessão e ampliar a integração logística da região.

FONTE: PORTAL 93

IMAGEM: PETROBRAS/DIVULGAÇÃO

Petrobras registra alta com o enfraquecimento da dominância da Unipec no setor de transporte de petróleo.

A Petrobras emergiu como uma das maiores ganhadoras no mercado de afretamento de petróleo bruto no primeiro semestre de 2026, à medida que as interrupções no Oriente Médio deslocaram a demanda por navios-tanque para o fluxo de petróleo bruto da Bacia do Atlântico. De acordo com o relatório Tanker Midterms da Poten & Partners, a Unipec manteve sua posição como a maior afretadora spot de petróleo bruto, com 244 contratos fechados. No entanto, seu domínio no segmento de VLCCs diminuiu, com o número de contratos caindo de 317 no primeiro semestre de 2025 para 217 neste ano.

A Petrobras, por sua vez, seguiu na direção oposta. A empresa aumentou o número de contratos de afretamento de VLCCs de 52 para 73, um aumento de 40%, subindo da sexta para a segunda posição no ranking geral de afretadores de navios-tanque de carga suja da Poten. O número total de contratos da empresa a colocou à frente da TotalEnergies, Chevron e ExxonMobil em volume de carga, perdendo apenas para a Unipec.

A Poten atribuiu a desaceleração generalizada na atividade de navios-tanque ao conflito no Oriente Médio, que efetivamente retirou o Golfo Pérsico do mercado spot por cerca de quatro meses. A consultoria também apontou para a queda nas importações chinesas de petróleo bruto após a interrupção, o que afetou a demanda por cargas do Oriente Médio.

FONTE: SPLASH247.COM

IMAGEM: DIVULVAÇÃO SEMIL/SP

Hidrovia Paraná-Tietê fortalece logística do agronegócio e conecta produção brasileira aos portos

A Hidrovia Paraná-Tietê consolida-se como uma das mais importantes estruturas logísticas do Brasil, desempenhando papel estratégico no escoamento da produção agropecuária, industrial e mineral do país. Com cerca de 2.400 quilômetros de extensão navegável, o corredor hidroviário conecta regiões produtivas do Centro-Oeste, Sudeste e Sul aos principais centros consumidores e aos portos de exportação, fortalecendo a competitividade da economia nacional.

Mais do que uma alternativa de transporte, a hidrovia é considerada um dos pilares da logística multimodal brasileira. Ao integrar diferentes modais e reduzir a dependência do transporte rodoviário, a estrutura contribui para diminuir custos operacionais, aumentar a eficiência da cadeia de suprimentos e impulsionar o desenvolvimento regional.

Corredor estratégico para o agronegócio brasileiro

A área de influência da Hidrovia Paraná-Tietê abrange aproximadamente 76 milhões de hectares e engloba algumas das regiões mais produtivas do país. O sistema atende especialmente áreas agrícolas de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás e Minas Gerais, facilitando o transporte de commodities até o Porto de Santos, principal porta de saída das exportações brasileiras.

Entre as principais cargas movimentadas pela hidrovia estão soja, milho, cana-de-açúcar, combustíveis e minério de ferro. O corredor também favorece o abastecimento do mercado interno e amplia a integração comercial com países do Mercosul.

Ao longo de sua área de abrangência, a hidrovia influencia diretamente 286 municípios distribuídos pelos estados de São Paulo, Paraná, Mato Grosso do Sul, Goiás e Minas Gerais. A região concentra importantes polos industriais, centros logísticos, áreas turísticas e terminais de distribuição que se desenvolveram impulsionados pela navegação interior.

Integração logística entre diferentes modais

A estrutura é composta principalmente pelas hidrovias HN-900, no Rio Paraná, e HN-913, no Rio Tietê. Do total navegável, cerca de 1.600 quilômetros nos rios Paraná, Paranaíba e Grande são administrados pelo Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT). Outros 800 quilômetros, localizados nos rios Tietê, Piracicaba e São José dos Dourados, estão sob gestão do Governo de São Paulo.

Um dos diferenciais do sistema é a presença de eclusas ao longo do percurso, permitindo superar os desníveis provocados pelas barragens existentes na bacia hidrográfica. Essa infraestrutura garante a continuidade da navegação e fortalece a integração entre os modais hidroviário, ferroviário e rodoviário.

Segundo o ministro de Portos e Aeroportos, Tomé Franca, o fortalecimento das hidrovias é fundamental para ampliar a integração regional e promover um desenvolvimento econômico mais sustentável.

“Nossa visão para as hidrovias é de um futuro em que a integração regional seja a norma, onde a eficiência logística otimize o desenvolvimento econômico e onde a sustentabilidade seja uma diretriz permanente”, afirmou.

Investimentos ampliam capacidade operacional da hidrovia

A relevância econômica da Hidrovia Paraná-Tietê tem impulsionado novos investimentos em infraestrutura. Um dos principais projetos em andamento é a obra de derrocamento do canal de Nova Avanhandava, no Rio Tietê, considerada estratégica para ampliar a navegabilidade do sistema.

Com investimento de R$ 293,8 milhões, a intervenção prevê o aprofundamento do canal em 3,5 metros ao longo de 16 quilômetros. A expectativa é que a obra, prevista para ser concluída em agosto, aumente a capacidade de transporte da hidrovia e permita a circulação de comboios maiores durante todo o ano, inclusive em períodos de estiagem.

De acordo com o ministro Tomé Franca, a iniciativa contribuirá para reduzir custos logísticos e fortalecer a competitividade brasileira no mercado internacional.
Desenvolvimento regional e sustentabilidade

Além dos ganhos para o transporte de cargas, os investimentos na hidrovia também geram impactos positivos para as comunidades atendidas. O secretário nacional de Hidrovias e Navegação, Otto Burlier, destaca que as melhorias ampliam o acesso a serviços, fortalecem o abastecimento e estimulam atividades econômicas locais.

A expansão da navegação interior também está alinhada às estratégias de sustentabilidade do setor logístico. O transporte hidroviário apresenta menor consumo de combustível por tonelada transportada e reduz significativamente as emissões de gases de efeito estufa quando comparado ao transporte rodoviário.

Hidrovia ganha protagonismo na logística nacional

Com capacidade para conectar áreas produtoras, polos industriais, centros consumidores e mercados internacionais, a Hidrovia Paraná-Tietê reforça seu papel como um dos principais corredores logísticos do Brasil. Em um cenário de crescente demanda por eficiência no transporte e competitividade nas exportações, a ampliação da infraestrutura hidroviária surge como um dos caminhos mais promissores para sustentar o crescimento do agronegócio e da economia brasileira.

FONTE: PORTAL DO AGRONEGÓCIO

IMAGEM: Africa Logistic Solutions/THE MARITIME EXECUTIVE

A Federação Internacional dos Trabalhadores em Transportes (ITF) relata mais um caso de abandono de tripulação. Neste caso, a tripulação está trabalhando muito além do horário contratado e tem direito a US$ 68.000. A ITF tentou providenciar a repatriação da tripulação e agora informa que está prestando assistência jurídica para que os tripulantes iniciem o processo de apreensão da embarcação.

A situação começou em maio de 2026, quando um dos tripulantes do navio cargueiro Lady Mina (3.400 dwt) contatou a ITF enquanto a embarcação estava no Porto de Las Palmas. Uma inspeção a bordo realizada por Gonzalo Galan, inspetor da ITF para as Ilhas Canárias, constatou sérias deficiências tanto nas condições da embarcação quanto nas condições de vida e de trabalho da tripulação.

Eles relataram que seis marítimos permanecem a bordo do Lady Mina , que agora está detido. O primeiro marítimo a contatar a ITF solicitou assistência para repatriação após o término de seu contrato de trabalho. Apesar de ter trabalhado a bordo por mais de 13 meses – bem além do máximo de 11 meses permitido pela Convenção do Trabalho Marítimo de 2006 – e de ter solicitado repetidamente a repatriação, o armador não cumpriu suas obrigações para com os marítimos. O inspetor da ITF também constatou que dois marítimos estavam a bordo desde abril de 2025, enquanto o chefe de máquinas estava a serviço desde outubro de 2024 e sem receber salário desde janeiro de 2026. 

"Quando embarquei no Lady Mina , ficou imediatamente claro que essa tripulação havia sido abandonada à própria sorte", disse Galan. "O engenheiro-chefe ficou seis meses sem receber um único pagamento, mas manteve o navio funcionando porque não tinha outra escolha. Isso não é um descuido do proprietário – isso é abandono." 

Após confirmar o abandono da tripulação, a ITF reportou o caso à Capitania Marítima espanhola, que deteve a embarcação. A ITF alega ainda que o Lady Mina navega sem os certificados legais exigidos, e que a documentação da garantia financeira prevista na Convenção do Trabalho Marítimo (MLC), destinada a proteger os marítimos em casos de abandono, aparenta ser fraudulenta. 

Inicialmente, o armador providenciou a repatriação de dois tripulantes e pagou seus salários atrasados. Além disso, foram fornecidos mantimentos frescos e água potável para atender às necessidades imediatas da tripulação.

A ITF, no entanto, afirma que, semanas depois, o armador não repatriou os tripulantes restantes cujos contratos expiraram. Também não fez nenhum esforço para reparar a embarcação e continua retendo os salários da tripulação. 

A ITF está agora prestando assistência jurídica à tripulação para iniciar o processo de apreensão da embarcação. Voluntários da organização beneficente Stella Maris entregaram suprimentos alimentares adicionais à tripulação.

A ITF alega que esta não é a primeira vez que este armador abandona a tripulação deste navio. O caso foi reportado à Base de Dados Conjunta da OIT/IMO sobre Abandono de Marítimos em dezembro de 2024, após o armador ter deixado de pagar a tripulação durante cinco meses e a ter abandonado em Djen Djen, na Argélia.  

As circunstâncias do caso Lady Mina também permanecem obscuras. Algumas bases de dados indicam que o navio está registrado em São Cristóvão e Névis, enquanto outras apontam para a Tanzânia. O navio foi construído em 1989 e atualmente é gerido por interesses turcos. 

Em fevereiro de 2026, o navio foi alvo de 18 deficiências durante uma inspeção do Estado do Porto em Gana. O relatório cita condições estruturais, segurança contra incêndio, problemas com o rádio e condições de trabalho e de alojamento.

A ITF afirma que casos como esse estão se tornando muito comuns. Ela destaca o aumento no número de casos de abandono e pede que as autoridades intensifiquem a fiscalização para garantir que os armadores cumpram suas obrigações legais.

FONTE: THE MARITIME EXECUTIVE

IMAGEM: Amirhosein Khorgooi/Isna/Wana/via Reuters

A Organização Marítima Internacional (IMO) lançou oficialmente uma operação de evacuação em larga escala para mais de 11.000 marítimos retidos no Estreito de Ormuz. Esta operação foi iniciada após os Estados Unidos e o Irã assinarem um memorando de entendimento (MoU) com o objetivo de pôr fim às hostilidades iniciadas pelos EUA e por Israel contra o Irã.

"Garantimos a segurança necessária e verificamos minuciosamente todas as condições marítimas para assegurar que possamos apoiar estas operações da forma mais segura possível", enfatizou Dominguez.

Desde o início das hostilidades em 28 de fevereiro, o Estreito de Ormuz está bloqueado, deixando inúmeros navios retidos na hidrovia. No entanto, o tráfego marítimo começou a mostrar sinais positivos de recuperação desde a assinatura do memorando de entendimento na semana passada.

A operação será realizada “em estreita cooperação com o Irão, Omã, todos os outros Estados costeiros da região, os Estados Unidos e a indústria marítima”, disse Dominguez.

A Marinha de Omã emitiu um boletim que os referidos navios sairão numa abordagem faseada através de dois corredores marítimos temporários para garantir a segurança dos marítimos.

As rotas marítimas sob o Esquema de Separação de Tráfego pré-guerra, abreviadamente TSS, não são seguras para uso no momento, de acordo com o boletim. Há preocupações de que o Irã tenha minado partes de Ormuz.

Os navios podem sair de Ormuz através de uma rota ao sul e uma rota ao norte do TSS, disse o boletim.

Segundo um relatório da Kpler, pelo menos 36 navios mercantes atravessaram o estreito em 22 de junho. Este é um volume recorde desde o início das hostilidades.

Em relação ao plano de evacuação, o Ministério da Defesa de Omã anunciou que o processo, que vem sendo discutido há meses, será realizado em etapas. O lado omanita declarou: “Dado o risco aumentado de colisões no ambiente atual, uma evacuação gradual e controlada do tráfego marítimo é imprescindível.”

Muitos outros países também estão intensificando os esforços para ajudar a restaurar essa hidrovia. Em 23 de junho, a Dinamarca anunciou que se juntaria a uma missão marítima internacional estabelecida pela França e pelo Reino Unido para ajudar a reabrir o Estreito de Ormuz.

FONTE: VIETNAM.VM

IMAGEM: REPRODUÇÃO

Fruto de construção coletiva, documento reúne um diagnóstico da governança e da regulação da navegação interior. Trabalho foi apresentado em workshop realizado pela CNT

Como aproveitar um dos maiores potenciais hidroviários do mundo para tornar o transporte brasileiro mais eficiente, competitivo e sustentável? Essa foi a questão que norteou o estudo inédito Propostas para o Desenvolvimento da Navegação Interior Brasileira, apresentado pela CNT na quinta-feira (2), em Brasília. Elaborado pela consultoria Pezco, em parceria com o MPor (Ministério de Portos e Aeroportos) e o MDIC (Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços), o documento reúne um diagnóstico da governança e da regulação da navegação interior e apresenta uma agenda de recomendações técnicas para impulsionar o desenvolvimento das hidrovias brasileiras. 

O estudo foi divulgado durante o workshop Governança e Regulação da Navegação Interior, realizado na sede da CNT, e integra uma etapa do processo de elaboração do documento. O encontro reuniu representantes do governo, da iniciativa privada, da academia e de entidades ligadas ao transporte aquaviário para discutir as propostas e apresentar contribuições que serão avaliadas pela equipe técnica para aperfeiçoar o estudo.

Na abertura do evento, o diretor de Relações Institucionais da CNT, Valter Souza, destacou que o fortalecimento das hidrovias está diretamente relacionado à necessidade de tornar a matriz de transportes brasileira mais equilibrada e eficiente. “Não podemos continuar com uma matriz em que cerca de dois terços das cargas são transportados por caminhões e mais de 90% dos passageiros dependem do transporte rodoviário. Precisamos desenvolver outros modais, e a navegação interior é um deles”, pontuou.

Segundo Valter Souza, a CNT entende que a logística deve ser tratada como uma política de Estado, com planejamento de longo prazo e participação conjunta dos diferentes atores envolvidos. “A logística é um projeto de Estado, não um projeto de governo. Mudar a matriz de transporte exige continuidade, planejamento e união entre todos os envolvidos. O Brasil tem um enorme potencial para desenvolver a navegação interior, e qualquer iniciativa que contribua para esse objetivo precisa ser construída de forma conjunta”, acrescentou.

O secretário adjunto de Competitividade e Política Regulatória do MDIC, Leonardo Ferreira de Oliveira, lembrou que o trabalho teve início em 2024, a partir da identificação da necessidade de aprofundar o debate sobre a governança da navegação interior. “Essa iniciativa não representa um ponto de chegada, mas um ponto de partida. É uma agenda que sinaliza os temas em que precisamos avançar como sociedade, seja por meio de aperfeiçoamentos regulatórios e mudanças legais, seja por meio de ações coordenadas entre governo e setor produtivo.”

O secretário nacional de Hidrovias e Navegação do MPor, Otto Burlier, afirmou que o Brasil ainda utiliza muito pouco seu potencial hidroviário e que o desenvolvimento do modal é urgente. “É inadmissível um país com cerca de 20 mil quilômetros de rios naturalmente navegáveis, e potencial para chegar a 40 mil ou até 60 mil quilômetros, utilizar apenas cerca de 5% da sua matriz logística por hidrovias e 11% por cabotagem. Precisamos enfrentar esse atraso histórico”, defendeu. 

A secretária executiva do MPor, Thairyne Oliveira, destacou que a criação da Secretaria Nacional de Hidrovias e Navegação demonstra a prioridade dada pelo governo ao tema, mas observou que o país ainda enfrenta desafios estruturais, regulatórios, ambientais e de comunicação. “Sabemos que não há como imaginar o avanço da infraestrutura brasileira sem considerar as hidrovias. O que precisamos agora é definir uma estratégia, estabelecer prioridades e uma agenda clara para enfrentar esses desafios. O estudo representa uma oportunidade para transformar diagnósticos em uma estratégia concreta de implementação”, disse. 

Responsável pela apresentação técnica do estudo, o economista Frederico Turolla, da Pezco Economics, explicou que as propostas foram estruturadas para fortalecer a inserção das hidrovias no planejamento logístico nacional e enfrentar os principais gargalos identificados durante o diagnóstico. Segundo ele, organizadas em ações de curto, médio e longo prazo, as recomendações buscam aperfeiçoar a governança, a infraestrutura, a regulação, a formação de mão de obra e os mecanismos de financiamento. “O estudo não se limita a identificar problemas. Ele apresenta uma agenda estruturada de transformação para que as hidrovias passem a ser consideradas, de forma efetiva, como alternativa modal no planejamento logístico brasileiro”, garantiu.

Uma agenda para fortalecer a navegação interior

O estudo parte do reconhecimento de que o Brasil possui uma das maiores redes hidrográficas do mundo, mas ainda aproveita de forma limitada esse potencial para o transporte de cargas e passageiros. A proposta busca posicionar as hidrovias como elemento estratégico para ampliar a competitividade da economia brasileira, reduzir custos logísticos, promover o desenvolvimento regional, integrar diferentes modais de transporte e contribuir para uma logística mais sustentável. 

Para isso, o documento apresenta um diagnóstico detalhado da estrutura de governança da navegação interior brasileira, identifica os principais gargalos do setor e propõe uma agenda de transformação organizada em ações de curto prazo (até quatro anos), médio prazo (entre quatro e doze anos) e longo prazo (entre doze e vinte anos), com horizonte estratégico até 2046. 

A elaboração do estudo envolveu revisão bibliográfica, análise do marco legal e regulatório, mais de 60 entrevistas com representantes do poder público, operadores, empresas, entidades setoriais e especialistas. Envolveu, também, a realização de missões técnicas no Brasil, nos Estados Unidos e na Europa para conhecer experiências internacionais de gestão da navegação interior. 

Entre os principais desafios identificados para o transporte de cargas, estão a baixa percepção estratégica das hidrovias, a fragmentação da governança, a insegurança regulatória, o planejamento insuficiente da infraestrutura, o déficit de mão de obra especializada, a insegurança patrimonial e as limitações de financiamento. 

Para a navegação de passageiros, o estudo aponta a ausência de dados estruturados e a elevada informalidade do setor, além da deficiência de infraestrutura de terminais e atracadouros e da dificuldade de acesso a mecanismos de financiamento. 

Agenda de transformação

O estudo propõe uma agenda de transformação voltada ao fortalecimento da navegação interior brasileira, com medidas para aperfeiçoar a governança e a regulação do setor, ampliar os investimentos em infraestrutura, aumentar a eficiência logística, reduzir entraves burocráticos, fortalecer a segurança, qualificar a mão de obra e criar um ambiente mais favorável à participação da iniciativa privada e ao financiamento de novos projetos. 

Para alcançar esses objetivos, o documento apresenta recomendações, como: 

  • a criação de uma instância nacional de coordenação da política para hidrovias; 
  • a elaboração de um plano setorial para o modal; 
  • o fortalecimento dos programas de dragagem e manutenção das vias navegáveis;
  • a implantação de um programa permanente de eclusas; e
  • a estruturação de novos mecanismos de financiamento e concessões hidroviárias.

São apresentadas, ainda, propostas voltadas ao transporte de passageiros, incluindo a regularização da operação, a modernização dos processos de outorga, a revitalização de terminais e o incentivo ao financiamento de embarcações. 

As contribuições apresentadas durante o workshop serão agora analisadas pela equipe responsável pelo projeto. A expectativa é que as sugestões dos participantes ajudem a aperfeiçoar as recomendações e subsidiem a elaboração do relatório final, que reunirá as propostas consideradas prioritárias para o desenvolvimento da navegação interior no Brasil. O material será entregue ao Ministério de Portos e Aeroportos para buscar as melhores medidas na construção de uma política de Estado.

FONTE: CNT

 

 

 

IMAGEM: POLITIZE

Trata-se da nova face da precarização. Estamos tratando da migração em massa de trabalhadores da CLT para contratos via PJ (pessoa jurídica), que transforma o trabalhador em “empresa” deixou de ser tendência restrita a profissionais de alta renda e passou a redesenhar o mercado de trabalho brasileiro.

Entre 2022 e 2025, cerca de 5,5 milhões de trabalhadores abandonaram vínculos formais e passaram a atuar como prestadores de serviço, segundo dados do MTE (Ministério do Trabalho e Emprego). 

O fenômeno, vendido por empresas como modernização das relações de trabalho e ampliação da flexibilidade, começa a produzir efeitos significativos sobre as contas públicas e a rede de proteção social.

Estimativas do governo apontam perdas de R$ 61,4 bilhões para a Previdência Social e de R$ 24,2 bilhões para o FGTS no período.

O crescimento acelerado da chamada pejotização levou o debate ao STF (Supremo Tribunal Federal), que realizará julgamento — Tema 1389 — com potencial para redefinir os limites entre contratação legítima e fraude trabalhista no País.

Semana passada, o Supremo decidiu retomar o andamento dos processos sobre pejotização na primeira e segunda instâncias da Justiça do Trabalho. Embora as ações possam voltar a tramitar nas varas e tribunais regionais, a Corte ainda não julgou o mérito da questão, pendente sob o Tema 1389 da repercussão geral.

O que está em jogo no STF

A discussão ganhou dimensão nacional após o STF suspender milhares de processos sobre reconhecimento de vínculo empregatício até o julgamento do Tema 1389, que deverá fixar tese de repercussão geral para todo o Judiciário.

O caso expõe divergência histórica entre a Justiça do Trabalho e setores empresariais. Enquanto o TST (Tribunal Superior do Trabalho) entende que a existência de CNPJ não afasta automaticamente o vínculo de emprego quando estão presentes subordinação, pessoalidade, habitualidade e remuneração, representantes do mercado defendem maior liberdade contratual.

Em audiência pública promovida pela Corte, magistrados, economistas, sindicalistas, empresários e especialistas divergiram sobre os efeitos do modelo. O ministro do Trabalho, Luiz Marinho, classificou a expansão da pejotização como ameaça à proteção previdenciária e trabalhista, alertando para o risco de esvaziamento do sistema de Seguridade Social, que engloba Previdência Social, Saúde Pública (SUS) e Assistência Social.

Nas redes e em fóruns especializados, o debate também se intensificou. De um lado, trabalhadores relatam ganhos líquidos maiores e maior autonomia profissional. De outro, multiplicam-se relatos de profissionais obrigados a abrir empresas para manter empregos que continuam funcionando sob as mesmas regras de subordinação típicas da CLT.

Crescimento impulsionado por empresas

A expansão da chamada pejotização não decorre apenas de escolha dos trabalhadores. Em muitos setores, essa tem sido estimulada por empresas interessadas em reduzir encargos trabalhistas e custos operacionais.

A diferença é expressiva. Enquanto a contratação formal envolve férias remuneradas, 13º salário, FGTS, contribuição previdenciária patronal e outras obrigações, os contratos PJ transferem parte desses custos e riscos para o trabalhador.

O resultado é pressão crescente para substituição de vínculos celetistas por contratos empresariais, sobretudo em segmentos de alta qualificação.

Levantamento da Catho mostra que as vagas para contratação via PJ cresceram 19% no primeiro trimestre de 2026 em comparação com o mesmo período do ano anterior. Estudo da InfoJobs indica dado revelador: apesar da expansão desse modelo, 56% dos profissionais que atuam como PJ afirmam preferir retornar ao regime CLT, principalmente em busca de estabilidade e proteção social.

Onde a pejotização mais avança

A transformação é especialmente intensa em atividades ligadas à economia digital e aos serviços especializados.

Na área de tecnologia da informação, mais de 90% dos profissionais já atuam como pessoa jurídica. Em comunicação e marketing, a participação do modelo passou de 49% das vagas em 2021 para 68% em 2026.

A saúde também aderiu fortemente ao sistema. Médicos plantonistas, psicólogos e outros profissionais frequentemente trabalham por meio de empresas próprias. O mesmo ocorre em setores como engenharia, advocacia, consultoria e produção audiovisual.

Por outro lado, atividades com menor remuneração média e maior necessidade de controle operacional continuam predominantemente vinculadas à CLT, como comércio, logística, transporte coletivo, construção civil, limpeza urbana e serviços administrativos.

Conta que fica para o Estado

O avanço da pejotização produz efeito paradoxal. Embora reduza custos para empresas e possa elevar a renda líquida de parte dos profissionais, diminui significativamente a arrecadação destinada à Previdência Social e ao FGTS.

Especialistas em finanças públicas alertam que a expansão indiscriminada do modelo pode ampliar o desequilíbrio previdenciário justamente em momento de envelhecimento acelerado da população brasileira.

A preocupação também envolve o futuro dos próprios trabalhadores. Sem contribuição previdenciária regular, milhões de profissionais podem chegar à aposentadoria sem cumprir requisitos mínimos para acesso a benefícios ou depender exclusivamente de programas assistenciais financiados pelo Estado.

Flexibilidade ou fraude?

A questão central não é a existência do contrato PJ em si. Há consenso de que esse é legítimo em inúmeras atividades empresariais e profissionais. O problema surge quando a figura jurídica é utilizada para mascarar relações de emprego tradicionais.

Nesses casos, trabalhadores cumprem jornada fixa, respondem a superiores hierárquicos, não podem se fazer substituir e recebem remuneração periódica, mas sem qualquer proteção trabalhista.

É justamente essa fronteira que o STF será chamado a definir.

O julgamento poderá estabelecer marco regulatório para um dos temas mais sensíveis da economia contemporânea: o equilíbrio entre flexibilidade produtiva, competitividade empresarial e preservação dos direitos sociais.

Mais do que disputa jurídica, a discussão reflete o dilema estrutural do mercado de trabalho brasileiro.

De um lado, empresas pressionadas por custos e competição global. De outro, milhões de trabalhadores que veem na carteira assinada não apenas contrato de trabalho, mas rede de proteção cada vez mais rara em mercado marcado pela informalização crescente, que, em última instância, significa precarização das relações de trabalho.

FONTE: DIAP

IMAGEM: Amirhosein Khorgooi/ISNA via AP

Ancorado no Golfo Pérsico, Abhijit Chopra soube do acordo de paz entre os EUA e o Irã quando seu telefone começou a vibrar com mensagens de familiares e amigos. Capitão de um petroleiro, ele teve que conter a empolgação. Não havia sinais de comemoração por parte das embarcações próximas, nem navios se dirigindo apressadamente para o Estreito de Ormuz .

Chopra e sua tripulação de 21 homens estão presos desde o início da guerra, no final de fevereiro. No começo, eles lutaram contra o medo e a incerteza, que se transformaram em tédio e uma batalha constante para não deixar que pensamentos negativos os dominassem. Por mais de 120 dias, eles esperaram, jantando juntos e fortalecendo os laços cantando antigas canções indianas no karaokê. No início de março, Chopra e sua tripulação — todos indianos, com exceção de um ucraniano — celebraram o Holi, um importante festival hindu, a bordo do navio-tanque. Eles pintaram as testas uns dos outros com açafrão em pó que tinham na cozinha.

Os sinais de que o estreito poderia reabrir surgiam e desapareciam. Por isso, desta vez, Chopra não reagiu de forma exagerada. "Quando disseram que o Estreito de Ormuz estava aberto, ficamos um pouco otimistas de que o navio pudesse transitar", disse ele. Mas, com as novas notícias de ataques a petroleiros, perceberam que ficariam retidos por mais algum tempo. "Houve um pouco de decepção", afirmou.

Cerca de 8.000 marítimos que não são da região permanecem retidos no Golfo , segundo a Organização Marítima Internacional, agência das Nações Unidas responsável por regulamentar e coordenar o transporte marítimo global. Os marítimos foram deixados à mercê de forças geopolíticas e negociações diplomáticas distantes, lutando para manter seus navios em operação enquanto mísseis e drones sobrevoavam suas cabeças. Seu destino é um lembrete contundente de que a economia global depende fortemente de indivíduos que, por vezes, precisam se esforçar ao máximo e enfrentar riscos incríveis para manter o fluxo comercial.

“No fim das contas, somos apenas pessoas comuns. Somos pais, filhos e maridos que passam meses no mar cumprindo um dever”, disse Chopra. “E fazemos isso porque alguém precisa fazer, e os bens e as economias do mundo dependem de todo esse trabalho marítimo.”

Os navios de longo curso são responsáveis ​​pelo transporte de mais de 80% das mercadorias globais, ou cerca de 70% do valor total, segundo estimativa do Banco Mundial. Atualmente, quase 2,6 milhões de marítimos trabalham a bordo da frota mundial de mais de 85 mil navios mercantes, de acordo com um  relatório conjunto  divulgado pela BIMCO, associação comercial do setor de transporte marítimo, e pela Câmara Internacional de Navegação. A maioria é recrutada em países de baixa renda, geralmente na Ásia, sendo as Filipinas e a Índia responsáveis ​​por cerca de 30% da força de trabalho global.

Trabalhar em navios pode ser difícil e perigoso, com as tripulações frequentemente longe de casa por meses a fio. As condições dos marítimos no mar são amplamente regidas pela  Convenção do Trabalho Marítimo, um tratado da Organização Internacional do Trabalho que define os direitos trabalhistas e de bem-estar, e aborda as proteções para eles em situações extraordinárias. 

Mas, para uma indústria global tão descentralizada quanto a de transporte marítimo, a fiscalização e o cumprimento das normas são inconsistentes. Grandes armadores costumam cumprir as regras, mas os marítimos em embarcações de empresas menores podem não ter acesso nem mesmo a esses direitos básicos, conforme relataram à Bloomberg News altos executivos de grupos de apoio. 

“O transporte marítimo global está praticamente estruturado para oferecer múltiplos canais diferentes de propriedade e operação, onde eu, como armador, posso estar em Londres, registrar meu navio na bandeira da Libéria e na Grécia, e simplesmente receber os lucros”, disse Ben Bailey, diretor de programas da Mission to Seafarers, uma organização beneficente que presta assistência a trabalhadores marítimos. “São os marítimos que correm o risco de ficarem desamparados e terem seus direitos negados.”

Quando ocorrem crises e conflitos, esses direitos são testados ao extremo.

Raman Kapoor, capitão de um navio-tanque Suezmax, supervisionou diversas viagens no Golfo Pérsico no final de 2025 e início de 2026, e tinha apenas 10 dias restantes em sua missão quando a guerra começou em 28 de fevereiro. O navio havia acabado de carregar petróleo bruto no porto iraquiano de Basra quando o prático em terra correu até Kapoor para lhe dizer que navios no Estreito de Ormuz haviam sido atacados

Logo em seguida, recebeu um telefonema de seus empregadores, com ordens para deixar o porto e seguir para uma ancoragem no golfo. "Todo o cenário mudou", disse Kapoor. "Nossos processos, qual seria nosso próximo porto, a programação do navio, tudo mudou. De repente, nos vimos em uma zona de guerra, sem nenhuma saída segura."

Os contratos de serviço para marítimos geralmente variam de quatro a nove meses. Em uma guerra que já dura mais de quatro meses, isso significa que muitos desses marinheiros presos no Golfo Pérsico estão perto do fim de seus contratos e deveriam ser substituídos por novas tripulações. Em alguns casos, os marítimos também têm o direito de solicitar a evacuação das zonas de conflito.

No entanto, manter um grande navio comercial em operação requer cerca de 22 pessoas, e os operadores de navios precisam gerenciar e programar cuidadosamente as partidas dos marinheiros e garantir que haja substitutos.

O salário de um marítimo geralmente segue o que é estabelecido em um  acordo coletivo global  como referência, e aqueles que servem em zonas de guerra podem receber um aumento salarial — em alguns casos, elevando seus salários mensais para até US$ 30.000 —, mas era difícil para as agências de recrutamento e operadores de navios encontrarem marítimos dispostos a voar para o Golfo. 

No início da guerra, as Filipinas, o maior país de origem de muitos marítimos, pediram às agências de recrutamento que parassem de enviar seus cidadãos para o Golfo Pérsico, agravando a escassez de substitutos disponíveis, embora Manila tenha flexibilizado essa restrição posteriormente. Alguns países do Golfo, incluindo o Iraque e o Kuwait, deixaram de emitir vistos por curtos períodos à medida que a situação de segurança piorava, impedindo que os marítimos que desejavam desembarcar para voltar para casa conseguissem sair de seus navios.

Alguns marítimos disseram que tiveram que racionar comida e água no início do conflito, por medo de não conseguirem reabastecer. Ingredientes para cozinhar e outros mantimentos eram entregues ao navio de Kapoor em uma pequena embarcação de suprimentos. As rações, que incluem salgadinhos, refrigerantes e cigarros, são suficientes para durar de 1,5 a 2 meses e podem custar até US$ 10.000 por lote.

Manter um navio em condições de navegar dá muito trabalho. A tripulação inspeciona a embarcação a cada poucas horas, verifica os equipamentos e fica de vigia para identificar possíveis perigos. A interferência eletrônica dificultou o uso dos sistemas de posicionamento global, então, às vezes, os marítimos precisam confirmar visualmente pontos de referência e outras embarcações. Os marítimos disseram que essas rotinas os ajudavam a se manterem firmes e alertas enquanto aguardavam ancorados.

Mas a vida em um navio — que, no caso de Kapoor, tem apenas 280 metros de comprimento e cerca de 50 metros de largura — é inevitavelmente limitada. O tempo de uso do telefone via satélite é limitado e caro, então as tripulações costumam racioná-lo com cuidado. Em alguns navios, os marítimos tentam agendar uma ligação para casa por semana. Para pessoas que passaram meses no mar sem ter ideia de quando poderiam retornar, essas breves conversas com a família costumam ser o ponto alto emocional da semana.

Para alguns tripulantes, a pesca se tornou tanto entretenimento quanto fonte de alimento. Marítimos entediados passam horas lançando suas linhas da lateral do navio. A pesca geralmente vai direto para a cozinha, onde o cozinheiro a transforma em jantar. O excedente é limpo e estendido no convés para secar sob o sol do golfo. Peixes-fita são especialmente comuns. Vários tripulantes disseram que o peixe seco caseiro se mostrou surpreendentemente delicioso — uma mudança bem-vinda após semanas de refeições repetitivas.

Os capitães disseram que os membros da tripulação foram incentivados a fazer tudo juntos e que ninguém deveria ficar sozinho — inclusive durante as refeições ou momentos de lazer. Vários marítimos relataram que o acesso a facas e outros objetos cortantes está mais rigorosamente controlado do que o normal, refletindo preocupações com a saúde mental em meio à incerteza que persiste.

“Fazemos o possível para manter o moral elevado de todos — sendo profissionais, disciplinados e solidários ”, disse Chopra. “Mas definitivamente existe uma sensação de tensão e incerteza nesses mais de cem dias em que não temos clareza sobre o que está prestes a acontecer.”

Houve lembranças ocasionais e vívidas da guerra. Pouco depois da meia-noite de 12 de março, a tripulação de Kapoor estava encerrando o expediente quando viu as chamas consumindo outro navio-tanque, o Safesea Vishnu, que estava a apenas uma milha náutica de distância. A embarcação havia sido atingida por um veículo não tripulado enquanto realizava uma transferência de nafta entre navios. Um membro da tripulação morreu.

O navio de Kapoor não conseguiu sair da área porque havia muitas outras embarcações aglomeradas ao redor. Os marítimos abrigaram-se em um espaço seguro designado, logo abaixo de sua área de alojamento. 

“Foi um momento muito assustador para todos nós, porque somos apenas marítimos. Não temos treinamento para guerra. Não somos guerreiros. Então, todos estavam com muito medo do que aconteceria se o próximo míssil ou drone atacasse nosso navio”, disse Kapoor.

Steven Arillo, oficial de navegação e segurança de um navio-tanque de gás natural liquefeito, estava atracado no porto de Ras Laffan, no Catar, quando a embarcação foi atingida por mísseis iranianos em meados de março. A tripulação teve apenas meia hora para deixar o porto. Um dos colegas de Arillo instalou uma câmera corporal e a ligou para registrar os mísseis cruzando o céu sobre o complexo. 

Seu navio, tripulado principalmente por marítimos filipinos, foi o último a sair do cais antes que outra barragem atingisse a usina, provocando uma enorme explosão. Se o navio tivesse atrasado meia hora, ele disse ter certeza de que teriam sido atingidos. "Tivemos muita sorte de sair bem a tempo", disse ele.

Assim como muitos outros, Arillo e seus colegas de tripulação pediram para voltar para casa, mas não havia substitutos disponíveis e os voos para fora da região foram interrompidos. Preso a bordo, ele se exercitou e aperfeiçoou sua arte em cafés com leite — postando regularmente no Instagram — enquanto esperava com seus binóculos para verificar se havia algum perigo iminente.

“Quando você está dentro de uma zona de guerra todos os dias da sua vida, é como uma bomba-relógio”, disse ele. “Você não sabe o que vai acontecer em seguida.”

Pelo menos 14 marítimos civis de países que não o Irã foram mortos durante a guerra , de acordo com cálculos de especialistas do setor. O Irã afirmou que cerca de 50 de seus marítimos morreram. Um marítimo permanece desaparecido, e também foram relatadas pelo menos duas mortes não relacionadas a combate, segundo a IMO (Organização Marítima Internacional).

Com o prolongamento da guerra, governos de todo o mundo tentaram negociar com as autoridades iranianas a passagem segura dos navios. O Paquistão garantiu a retirada de cerca de 20 embarcações. Um petroleiro indiano foi escoltado pela marinha iraniana após Nova Déli negociar com Teerã. Tóquio, em determinado momento, priorizou navios com ligações claras com o Japão — incluindo a nacionalidade da tripulação — nas negociações com Teerã para a retirada das embarcações, segundo pessoas familiarizadas com o assunto. 

Muitas vezes, a possibilidade de um marítimo navegar em segurança através do Canal de Ormuz dependia do valor e da importância da carga a bordo do navio que ele tripulava, da disposição do armador em arriscar a embarcação como um ativo e da sua capacidade de obter uma cobertura de seguro dispendiosa.

A comunidade marítima lamentou as negociações entre os Estados e as condições em que garantiram a passagem segura.

Durante as negociações de paz com os EUA, o Irã insistiu que espera manter o controle sobre o Estreito de Ormuz, com uma ameaça implícita aos navios que passarem sem cumprir suas condições. 

O bem-estar dos marítimos também está intimamente ligado à liberdade de navegação e às leis e normas do mar, de acordo com Jacqueline Smith, coordenadora marítima da Federação Internacional dos Trabalhadores em Transportes (ITF), um sindicato.

“Se o Irã pedir US$ 10.000 para a travessia e a empresa recusar, mas ainda assim esperar que o navio a faça, o que acontece então?”, questionou ela. “ Vamos pedir aos marítimos que naveguem no meio da noite, com as luzes apagadas, e arrisquem tudo ?”

Nos últimos anos, os marítimos que servem em navios de longo curso têm sido cada vez mais apanhados no fogo cruzado geopolítico. A pandemia da Covid-19 paralisou a economia global e deixou milhares de marítimos à deriva no mar. A invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia em 2022 transformou o Mar Negro numa zona onde os ataques com drones contra navios se tornaram mais comuns. O crescimento da “frota paralela”, composta por embarcações antigas que utilizam bandeiras falsas ou de nações que demonstram pouco interesse no bem-estar dos marítimos, criou novos riscos para as tripulações.

“Eles são a espinha dorsal da indústria, que potencialmente abandonarão o barco quando as coisas ficarem difíceis demais, e os marítimos ficarão presos nesses navios”, disse Bailey, da Missão para os Marinheiros. Ele também está preocupado com o fato de que conflitos e perigos estejam se tornando a nova normalidade para a indústria como um todo.

“A maior preocupação é como os níveis de incerteza da guerra chegaram a um nível alarmante de aceitação”, disse ele. “Marítimos e armadores costumavam ficar apavorados com a visão de mísseis e ataques. Com o passar do tempo, eles estão normalizando o que antes era uma situação anormal.

Em junho, os EUA e o Irã concordaram com um acordo provisório de 60 dias que incluía a reabertura do estreito. Mais navios estão agora transitando pelo ponto de estrangulamento — embora ainda em número muito menor do que antes do início da guerra.

Ao todo, cerca de 11 mil marítimos que não são da região ficaram retidos no Golfo durante a guerra, segundo a IMO, que anunciou um plano de curta duração para evacuar os marítimos em junho. O plano foi revogado poucos dias depois de o Irã atacar navios que transitavam pelo Estreito de Ormuz .

O plano evacuou 136 navios e resgatou cerca de 2.900 marítimos, segundo Natasha Brown, porta-voz da organização. "Ainda está suspenso, até que eu possa garantir as garantias de segurança necessárias de todas as partes", disse ela, acrescentando que a IMO recebeu feedback de marítimos sobre a necessidade de corredores seguros designados, protocolos claros e o direito de recusar passagem insegura para que possam lidar com futuras crises como a atual.

Preparar um navio para o trânsito não é um processo rápido, de acordo com Angad Banga, diretor executivo do conglomerado marítimo The Caravel Group, proprietário da Fleet Management Limited, uma das maiores empresas de gestão de navios do mundo.

Primeiramente, os navios precisam ser mantidos em condições de navegabilidade. Isso inclui a remoção de cracas e outros objetos que possam incrustar os cascos e a garantia de que todos os equipamentos estejam prontos. Em seguida, é necessário elaborar os planos de abastecimento de combustível. Assim que ficar claro que a embarcação provavelmente conseguirá navegar pelo Estreito de Ormuz, inicia-se o treinamento da tripulação para a viagem, incluindo a prática de procedimentos para situações de segurança. Isso pode incluir ensaiar as palavras exatas a serem ditas caso sejam abordados pelos iranianos durante a travessia do Estreito de Ormuz.

Isso significa que ainda há trabalho a fazer e tempo a passar antes que muitos dos navios no golfo possam seguir para o mar aberto.

FONTE: Bloomberg LP

 

IMAGEM: DEAN CONGER

A corrida para capitalizar a esperada reabertura do Estreito de Ormuz já está em andamento, com algumas das maiores operadoras de navios-tanque e de GNL do mundo reposicionando suas embarcações em direção ao Golfo Pérsico antes da assinatura, prevista para sexta-feira, de um acordo de paz entre os EUA e o Irã em Genebra.

Os armadores parecem cada vez mais confiantes de que o tráfego comercial será retomado em breve nessa importante hidrovia, mesmo com as autoridades militares continuando a alertar que a situação de segurança permanece frágil.

Os serviços de rastreamento de embarcações mostram que mais de 75 petroleiros estão atualmente a caminho do Oriente Médio, com grandes nomes como Sinokor e Maran Tankers Management na vanguarda. 

“A reabertura do Estreito de Ormuz é essencial para evitar um colapso no mercado de navios-tanque, e essa abertura provavelmente desencadeará uma corrida por contratos futuros e preparará o terreno para um ciclo de reabastecimento de estoques que durará vários anos”, afirma um relatório sobre os mercados de transporte marítimo do SEB, um banco escandinavo.

O setor de GNL está fazendo preparativos semelhantes, com o Catar ansioso para colocar as cargas em movimento.

Segundo dados de rastreamento de embarcações, o Catar começou a repatriar seus navios metaneiros para o Oriente Médio após semanas de inatividade ou deslocamento para outros locais. Pelo menos quatro navios metaneiros vazios, de propriedade do Catar, inverteram o curso e estão retornando à região, enquanto outra embarcação fretada também está voltando.

Talvez o sinal mais claro de que o bloqueio está começando a ser afrouxado venha do próprio Irã.

Segundo o TankerTrackers.com, as exportações de petróleo bruto iraniano foram retomadas pela primeira vez em dois meses. A empresa especializada em rastreamento de navios informou que dois VLCCs (Very Large Crude Carriers) da National Iranian Tanker Company (NITC), o Diona e o Hero 2, cruzaram o perímetro do bloqueio da Marinha dos EUA transportando um total de 3,8 milhões de barris de petróleo bruto. Um terceiro navio-tanque da NITC, um Suezmax carregado com aproximadamente 1 milhão de barris de petróleo bruto, também teria partido.

Utilizando dados AIS corroborados por imagens de satélite, o TankerTrackers.com descreveu as movimentações como as primeiras exportações de petróleo bruto do Irã desde a imposição do bloqueio naval.

Apesar do aumento da atividade de embarcações, as autoridades militares permanecem cautelosas.

O Centro Conjunto de Informação Marítima (JMIC, na sigla em inglês) reduziu sua avaliação de ameaça à navegação no Estreito de Ormuz de "crítica" para "substancial", o nível mais baixo desde o início do conflito em 28 de fevereiro. No entanto, a organização ressaltou que os riscos permanecem elevados.

“O tráfego marítimo continua sob um ambiente de risco substancial”, afirmou o JMIC em seu último comunicado, alertando que interferências na navegação, atividades de vigilância e interrupções de curto prazo permanecem possíveis.

O comunicado acrescentou que "um ataque é uma forte possibilidade", apesar de observar que a atividade da Guarda Revolucionária Iraniana se tornou menos volátil após o anúncio do futuro memorando de entendimento entre os EUA e o Irã.

As forças navais dos EUA continuam a manter uma presença significativa na área, o que, segundo o JMIC, proporciona uma "supervisão estabilizadora".

Por ora, porém, a maior ameaça ao retorno à normalidade pode não vir de Teerã ou de Washington.

Nenhuma das partes divulgou o texto do acordo que deve ser assinado em Genebra nesta sexta-feira, e autoridades iranianas têm repetidamente condicionado o acordo à cessação das atividades militares israelenses. Teerã alega que Israel já violou o entendimento dezenas de vezes desde que foi firmado e advertiu sobre “severas consequências”.

Ao mesmo tempo, Israel parece encarar o acordo principalmente como um pacto bilateral entre os EUA e o Irã, e não como um instrumento que limite suas próprias ações.

Embora os armadores estejam se preparando para a reabertura do mercado e as exportações iranianas estejam começando a se recuperar, uma única escalada envolvendo Israel ainda poderia comprometer o avanço diplomático.

Para além do delicado equilíbrio diplomático, há muito que precisa acontecer ao longo do estreito antes que o tráfego realmente aumente.

“Mesmo que o mercado reaja positivamente às notícias sobre a abertura do porto de Hormuz, a realidade operacional provavelmente será mais complexa”, disse Charu Chanana, estrategista-chefe de investimentos da Saxo Markets.

“A remoção de minas, os custos de seguros, a congestão portuária e o risco de interferências geopolíticas podem fazer com que o transporte de barris seja mais lento do que o sugerido pela manchete.”