IMAGEM:AMSA

A Autoridade Australiana de Segurança Marítima (AMSA) alerta os empregadores do setor marítimo que o não cumprimento das normas mínimas relativas às condições de vida e de trabalho dos marítimos pode acarretar sérias consequências.

Os empregadores são obrigados a garantir o pagamento pontual dos salários, alojamento seguro, descanso adequado e acesso a apoio, em conformidade com as suas obrigações ao abrigo da Convenção do Trabalho Marítimo (MLC).

No início desta semana, a AMSA (Agência Marítima e de Segurança da Malásia) embarcou no navio BBG Wuzhou, de bandeira liberiana, quando este atracou em Newcastle, e realizou uma inspeção completa. A AMSA identificou diversos problemas, incluindo defeitos relacionados ao pagamento insuficiente de salários da tripulação, alimentação insuficiente e falta de água potável gratuita para os marinheiros, e, consequentemente, deteve o navio por falta de condições de navegabilidade e por estar em condições abaixo do padrão.

A AMSA constatou que a tripulação não recebia salários há quase sete meses, com dívidas que totalizavam dezenas de milhares de dólares.

Como resultado, a AMSA proibiu a entrada ou utilização de quaisquer portos ou águas australianas pela embarcação até 4 de outubro, com efeito imediato.

Greg Witherall, diretor executivo interino de operações da AMSA, afirmou: “Pagar salários inferiores aos devidos aos marítimos é exploração pura e simplesmente. A Austrália tem tolerância zero para tal conduta. É ilegal, antiética e uma clara violação de nossas leis e valores. Os empregadores que se envolvem nesse comportamento não devem ter dúvidas. Se forem pegos, serão responsabilizados. As proibições de entrada de embarcações são custosas, com alguns operadores enfrentando perdas de milhões de dólares por terem o acesso negado aos portos australianos. A AMSA não hesitará em exercer sua autoridade sob a Convenção do Trabalho Marítimo (MLC) quando for constatado que as embarcações estão em desacordo com a lei.”

FONTE: SPLASH247.COM

IMAGEM: NATIONAL GEOGRAPHIC

O fechamento do Estreito de Ormuz concentrou a atenção mundial no fluxo de mercadorias que saem do Golfo Pérsico, incluindo 20% do petróleo mundial e 30% dos fertilizantes. Mas, igualmente importante, as cargas não estão chegando, e a região depende de importações para a maior parte de seus alimentos. 

A maioria das principais companhias de transporte marítimo de contêineres do mundo suspendeu as reservas de carga para o mercado do Golfo porque não conseguem atravessar o Estreito. Existem alternativas por terra, através da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos, mas a capacidade é limitada e os custos são elevados. Na quarta-feira, o presidente da Maersk, Robert Maersk Uggla, afirmou que havia uma "necessidade urgente" de importação de alimentos para o mercado do Golfo, incluindo entregas que exigem refrigeração. "Como o Estreito de Ormuz está fechado por enquanto, estamos tentando encontrar outras maneiras de levar a carga para o Golfo", disse ele à Reuters. 

A China Cosco, quarta maior empresa de transporte marítimo de contêineres do mundo, anunciou na quarta-feira que retomará o recebimento de reservas para os Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Bahrein, Catar, Kuwait e Iraque – todos os países (exceto o Irã) afetados pela paralisação. 

Embora amplamente divulgado como um anúncio da retomada do trânsito pelo Estreito de Ormuz, parece que a Cosco não pretende enviar navios para atender destinos no Golfo. Um mapa em chinês que acompanha o anúncio da Cosco sugere que os contêineres seriam descarregados em Fujairah e transportados por via terrestre, um desenvolvimento confirmado por diversos analistas de frete chineses. O serviço espelha os acordos feitos anteriormente pela CMA CGM para transportar cargas por via terrestre através de portos vizinhos no Golfo de Omã, Mar Arábico e Mar Vermelho. 

A Cosco afirmou que o serviço continua sujeito a alterações com base em desenvolvimentos futuros em uma situação de segurança "instável". 

Essas rotas alternativas para o Golfo podem incluir um componente marítimo como parte de uma cadeia intermodal. A Gulftainer firmou um acordo com a Mawani, a autoridade portuária saudita, para estabelecer um serviço de conexão ligando Khor Fakkan a Sharjah e, ​​em seguida, por via marítima, a Dammam. A conexão simula a maior parte de uma viagem totalmente marítima do Oceano Índico até o importante porto saudita, mas substitui o trecho por uma curta travessia terrestre pelos Emirados Árabes Unidos para contornar o Estreito de Ormuz. 

FONTE: THE MARITIME EXECUTIVE

IMAGEM: GALLO /COPERNICUS SENTINEL

Navegação evita as rotas marítimas do Canal de Ormuz, enquanto o Irã direciona os navios para corredores controlados.

O governo Trump insistiu que o Estreito de Ormuz está aberto após o cessar-fogo, mas os primeiros dados de navegação sugerem o contrário. A movimentação de embarcações permanece extremamente limitada, sem um retorno significativo ao tráfego normal e com notável ausência de embarques de energia, enquanto os armadores aguardam esclarecimentos sobre como as travessias serão realizadas.

Uma análise de Martin Kelly, chefe de consultoria do EOS Risk Group, indica que as últimas diretrizes do Irã — emitidas horas após um cessar-fogo entre os EUA e o Irã — já estão remodelando a forma como os navios transitam por um dos pontos de estrangulamento mais críticos do mundo.

Segundo Kelly, as autoridades iranianas instruíram os navios comerciais a evitarem as rotas tradicionais do Sistema de Separação de Tráfego (TSS, na sigla em inglês) e a utilizarem corredores alternativos perto da Ilha de Larak, que se tornaram uma marca registrada da crise até o momento, devido ao risco de minas marítimas implantadas durante o conflito. O tráfego de entrada estaria sendo desviado para o norte da ilha, enquanto os navios de saída seriam direcionados para o sul, aproximando o tráfego das águas territoriais iranianas.

Embora a presença e a extensão da implantação de minas nas principais rotas de navegação ainda não tenham sido confirmadas, o impacto do próprio alerta já está sendo sentido em todo o setor.

“Comandantes, proprietários, afretadores e seguradoras têm muito mais probabilidade de optar por uma 'rota segura' se acreditarem que minas foram colocadas na Zona de Separação de Tráfego de Navios”, observou Kelly, destacando como a percepção de risco por si só pode alterar os padrões globais de transporte marítimo.

Os primeiros dados de trânsito parecem corroborar essa mudança. Várias embarcações transitaram pelo Estreito pela rota controlada pelo Irã desde o cessar-fogo, evitando as vias estabelecidas, enquanto o tráfego total permanece uma fração ínfima dos níveis normais. Segundo Kpler, apenas quatro navios graneleiros passaram pelo estreito no primeiro dia do cessar-fogo — nenhum deles petroleiro ou transportador de GNL.

Grupos do setor, incluindo a BIMCO, alertaram que é improvável que os armadores se precipitem em entrar no Estreito sem orientações claras e coordenadas de Washington e Teerã. Na ausência de escoltas navais e com a incerteza em relação às rotas, protocolos de comunicação e potenciais riscos, os operadores permanecem em compasso de espera.

Kelly argumenta que a situação em evolução pode representar mais do que uma medida de segurança temporária. Ao desviar embarcações de rotas internacionais reconhecidas e direcioná-las para vias que exigem coordenação, o Irã pode estar exercendo uma forma de controle de fato sobre o trânsito marítimo — independentemente de tal sistema estar ou não formalmente estruturado.

“As minas criam o problema. As rotas alternativas criam a solução”, disse Kelly, descrevendo um cenário em que mudanças nas rotas — combinadas com a incerteza — poderiam canalizar o tráfego para corredores mais estreitos e controlados.

Mesmo que a ameaça da mina se mostre limitada ou localizada, as implicações comerciais podem ser significativas. Se a confiança no Sistema de Tráfego de Carga (TSS) for abalada, o restabelecimento do fluxo normal de tráfego poderá levar semanas ou até mais, especialmente para os carregamentos de energia, que apresentam maior risco financeiro e operacional.

A lentidão das travessias também levanta questões sobre a rapidez com que o Estreito poderá retomar suas operações normais. Com centenas de embarcações aguardando dentro ou ao redor do Golfo Pérsico, a resolução do impasse exigiria um aumento constante no número de movimentações diárias — algo que ainda não se concretizou.

Por ora, a distinção entre um Estreito de Ormuz “aberto” e um Estreito de Ormuz “em funcionamento” está se tornando cada vez mais clara.

Embora os líderes políticos tenham enfatizado que a hidrovia permanece acessível, o comportamento da navegação sugere a realidade da crise.

Enquanto essas incertezas não forem resolvidas, o Estreito pode estar aberto, mas está longe de estar totalmente operacional.

FONTE: GCAPTAIN

IMAGEM: CEZAR FERNANDES/FOLHA DE PERNAMBUCO

O Ministério de Portos e Aeroportos (MPor) informou que o Conselho Diretor do Fundo da Marinha Mercante (CDFMM) aprovou, em reunião realizada em 18 de março, investimentos de R$ 6 bilhões para 13 projetos e 95 obras no setor naval e portuário. A expectativa, explicou a pasta, é que eles gerem cerca de 2,8 mil empregos diretos.

Entre os projetos aprovados, anunciou o MPor, está o do Porto Central, no Espírito Santo, de infraestrutura portuária, no qual serão investidos R$ 2,18 bilhões, e o de construção para a Petrobras de quatro embarcações para transporte de derivados de petróleo, com aportes previstos de R$ 2,17 bilhões.

Foi aprovada também a produção de 35 embarcações para a GDE Transportes destinadas a transporte de combustíveis na região Norte, orçada em R$ 380,3 milhões.Os investimentos aprovados incluem ainda a construção de embarcações de apoio marítimo, navegação interior e carga, além de manutenção, reparo, modernização e ampliação de estaleiros em estados, entre os quais Amazonas, Bahia, Rio de Janeiro e São Paulo. O secretário executivo do MPor e presidente do CDFMM, Tomé Franca, disse que a aprovação desses projetos confirma a retomada dos investimentos no setor.

O ministério informou que a próxima reunião do Conselho será em 18 de junho de 2026 e que propostas podem ser apresentadas até 20 de abril. No caso de aprovação, os responsáveis terão 450 dias para formalizar a contratação do financiamento, com possibilidade de prorrogação por até 180 dias.

FONTE: Portos  e Navios

IMAGEM: DIVULGAÇÃO

Empresas ligadas à produção de energia no Brasil e entidades setoriais criaram a ‘Coalizão Eólica Marinha’ (CEM), definida como espaço de convergência e de colaboração e que tem como objetivo contribuir, exclusivamente, para o desenvolvimento da exploração da energia eólica offshore no Brasil. Segundo comunicado divulgado pela engenharia ambiental Roberta Cox, diretora de Políticas para o Brasil do Global Wind Energy Council (GWEC), a nova entidade pretende estimular o diálogo qualificado, a promoção de boas práticas internacionais, o apoio à construção de um ambiente regulatório propositivo e previsível e, principalmente, “a construção dessa nova indústria como vetor para desenvolvimento sustentável, combate às mudanças climáticas e criação de valor para as comunidades locais”.

No documento, Roberta explica que a iniciativa busca atuar para desbloquear as oportunidades que a fonte eólica offshore oferece aos países que nela acreditam e de forma a complementar outros esforços em curso, “promovendo alinhamento entre diferentes perspectivas, desobstruindo gargalos e apoiando a pavimentação de um caminho sustentável, um catalisador para a fonte”.

O comunicado divulgado pelos criadores do CME cita a recente aprovação, pelo Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), das diretrizes para o desenvolvimento da fonte energia eólica e a continuidade das discussões no âmbito do Congresso Nacional, incluindo a audiência pública a ser realizada no Senado na próxima terça-feira (7), como motivadores para a criação do Conselho.

“Tais marcos sinalizam também a construção material de um ambiente mais estruturado para a consolidação desta fonte de energia no Brasil”, explica o documento. Destaca também que “nas últimas semanas o Brasil tem observado o debate sobre energia eólica offshore, refletido na crescente mobilização de atores públicos, privados e acadêmicos, bem como no aprofundamento técnico e institucional do tema”.

Segundo Roberta Cox, mais do que uma agenda setorial, o uso da energia eólica deve ser tratada como uma agenda de país, já que tem potencial de “impulsionar a geração de empregos qualificados, o desenvolvimento industrial, a dinamização regional e a inserção do Brasil nas cadeias globais de valor da transição energética”. Ressalta ainda que é “uma indústria verde nova e com recursos que propiciam um potencial gigantesco, entre os maiores e melhores do mundo, com capacidade para gerar mais de 500 mil empregos e superar os 900 bilhões de reais em valor agregado à economia brasileira”, citando estudo recente do Ministério de Mina e Energia (MME) e do Banco Mundial.

FONTE: Portos e Navios

IMAGEM: MINISTÉRIO DOS TRANSPORTES

Debate na Câmara defende concessão de hidrovias na região Norte, mas com controle social

Brasil tem 20 mil km de hidrovias implantadas e potencial de dobrar essa extensão a partir de novos investimentos

O secretário nacional de Hidrovias e Navegação do Ministério de Portos e Aeroportos, Otto Burlier, fez defesa enfática das concessões de serviços hidroviários nos rios Tapajós, Madeira e Tocantins, durante audiência na Comissão de Desenvolvimento Econômico da Câmara dos Deputados na terça-feira (17).

O tema tem apoio do agronegócio, interessado no escoamento de grãos do Centro-Oeste pelos portos do chamado Arco Norte, mas forte oposição de movimentos socioambientais, preocupados com o impacto no meio ambiente e no modo de vida de povos indígenas e comunidades ribeirinhas.

Há polêmica inclusive dentro do governo federal, que, após manifestações de indígenas no Pará por falta de consulta pública, revogou o decreto que incluía as três hidrovias no Programa Nacional de Desestatização (PND).

Otto Burlier descartou a hipótese de “privatização dos rios” e explicou a série de serviços previstos no pacote de concessões hidroviárias. “Além de manter o rio navegável durante todos os dias do ano, a gente vai ter serviço de hidrografia funcionando plenamente e um gestor sendo responsável pela hidrovia 24 horas por dia", garantiu.

Outras vantagens, de acordo com o secretário, são o compartilhamento de informação com os órgãos de segurança e o monitoramento ambiental ininterrupto.

"E, principalmente para a população que mais necessita desses serviços – ribeirinhos, passageiros, pescadores –, isso será de graça. Apenas as grandes embarcações pagarão por esses serviços”, completou.

Investimentos

Otto Burlier disse que o governo federal investiu R$ 1,2 bilhão em infraestrutura hidroviária entre 2023 e 2025. O país tem 20 mil km de hidrovias implantadas e potencial de dobrar essa extensão a partir de novos investimentos.

Segundo ele, a concessão representará a melhoria dos serviços, com ganhos sociais, ambientais e logísticos.

O secretário citou ainda a importância das hidrovias para as metas climáticas do Brasil de redução das emissões de CO2 no transporte de carga. Hoje o país usa apenas 5% das hidrovias neste setor, muito abaixo dos modais rodoviário (67%), ferroviário (18%) e de cabotagem costeira (9%).

A diretora da Associação de Terminais Portuários Privados, Gabriela Costa, informou que existem 287 terminais privados autorizados pela Agência Nacional de Transportes Aquaviários, dos quais 1/3 está localizado em águas interiores (rios e lagos), para dar conta do aumento da produção de grãos.

No ano passado, segundo ela, foram movimentadas 70 milhões de toneladas, só na região Norte. “Não existe privatização de rio. A gente está falando de concessão de serviços hidroviários para que você tenha uma matriz de responsabilidades definida e fazer com que esse ativo tão importante de recursos naturais seja aproveitado da melhor maneira possível, inclusive sob a ótica ambiental.”

Controle social

O coordenador do Núcleo de Inovação Social em Políticas Públicas (NISP), Diogo Helal, também defendeu o programa, mas fez sugestões de aprimoramento, sobretudo quanto ao controle social e ao monitoramento com dados abertos.

“É importante que nós consigamos fortalecer a participação social, para que as comunidades ribeirinhas, os povos indígenas e tradicionais sejam atores substantivos no desenho dos contratos", afirmou.

Para ele, as especificidades e realidades dessas populações precisam ser levadas em consideração nos editais. "Só quem está na ponta no dia a dia conhece, e isso inclusive fortalece o próprio desenho da concessão.”

O ex-ministro da Defesa Aldo Rebelo criticou o governo pela revogação do decreto de concessão das hidrovias dos rios Tapajós, Madeira e Tocantins. Segundo ele, houve pressão externa de ONGs, com quebra na confiança dos investidores internacionais. “É o Estado brasileiro sabotando o desenvolvimento do país.”

Impacto ambiental

Já a deputada Célia Xakriabá (Psol-MG) citou os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU para cobrar a avaliação do impacto socioambiental desses empreendimentos.

“E do ponto de vista de impacto, de contaminação: isso tem impacto ou foi analisado só a partir do ponto de vista econômico? Desenvolvimento sustentável a partir dos ODS é também primar pela vida das pessoas”, afirmou.

A audiência foi organizada pelo presidente da comissão, deputado Jadyel Alencar (Republicanos-PI), e coordenada pela deputada Antônia Lúcia (Republicanos-AC), que prevê novos debates.

“Nós vamos fazer uma mesa-redonda completando os agentes que precisam participar para esse debate ser mais amplo e para nós tentarmos chegar a uma solução final o mais rápido possível”, disse a parlamentar.

FONTE: Agência Câmara de Notícias

IMAGEM: UK EDITION

Sindicato não deve ser balcão: é trincheira e escola política dos trabalhadores

Reduzido à negociação salarial, o sindicalismo perde sua força transformadora. Quando assume seu papel formador, torna-se peça central na disputa por poder e consciência no Brasil.

 Marcos Verlaine*

A luta sindical deve ir muito além do contracheque, da disputa econômica. Reduzir o sindicato à mera negociação de salários é esvaziar sua essência histórica. O sindicalismo nunca foi apenas ferramenta para luta salarial.

Sempre foi, sobretudo, espaço de formação política, organização coletiva e construção de consciência de classe, independentemente de todo avanço tecnológico. Porque é mito que as máquinas substituirão as pessoas, pelo menos integralmente.

Quando limitado ao reajuste anual, o sindicato se torna mero prestador de serviços. Quando cumpre sua função plena, transforma trabalhadores em sujeitos políticos.

ESCOLA DE CONSCIÊNCIA DE CLASSE

O sindicato é, por natureza, uma escola. Não no sentido formal, mas como espaço vivo de aprendizado coletivo. É ali que os trabalhadores compreendem que sua condição não é individual, mas estrutural, coletiva.

A consciência de classe não nasce espontaneamente. Essa é construída, mediado: no e pelo debate, na mobilização, na troca de experiências.

Ao reconhecer interesses comuns, o trabalhador deixa de se ver como indivíduo isolado e passa a se enxergar como parte de uma força social.

Essa virada é decisiva: sem essa, há reivindicação; com essa, há projeto.

FORMAÇÃO POLÍTICA COMO ESTRATÉGIA

Experiências acumuladas por entidades como o Diap (Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar), Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos) e Diesat (Departamento Intersindical de Estudos e Pesquisas de Saúde e dos Ambientes de Trabalho) mostram que a formação sindical vai muito além da prática imediata.

Cursos, seminários e debates sobre economia, legislação trabalhista, história social e conjuntura política qualificam dirigentes e bases. Não se trata apenas de informar, mas de formar — de desenvolver capacidade crítica — para interpretar o mundo e agir sobre esse.

Sem essa dimensão, o sindicalismo se torna reativo. Com consciência de classe, torna-se estratégico.

DEMOCRACIA QUE SE APRENDE NA PRÁTICA

As assembleias sindicais são, muitas vezes, o primeiro espaço real de exercício democrático para milhões de trabalhadores. Ali se debate, se diverge, se vota e se decide coletivamente.

Esse processo educa para a cidadania ativa. Ensina que democracia não é apenas votar a cada 4 anos, mas participar, deliberar e assumir responsabilidades.

Num país de tradição autoritária, como é o caso do Brasil, essa pedagogia prática tem valor inestimável.

DISPUTA DE PODER E HEGEMONIA

O sindicalismo também atua na arena mais ampla da sociedade. Não apenas reage às políticas públicas, mas busca influenciá-las. Organiza mobilizações, pressiona o Legislativo, dialoga com o Executivo e participa de conselhos institucionais. Realiza eventos para a categoria profissional e econômica. Organiza o trabalhador para fazer luta coletiva.

Trata-se de disputar hegemonia: no sentido de construir visão de mundo capaz de orientar políticas e decisões. O sindicato, nesse contexto, deixa de ser apenas defensivo e passa a ser propositivo e organizativo.

É nesse ponto que a luta econômica se conecta à luta política, que tem várias dimensões: eleitoral, social, mudancista, emancipatória.

NOVAS AGENDAS, VELHOS DESAFIOS

O mundo do trabalho mudou. E o sindicalismo precisa acompanhar essa transformação. A chamada “4ª Revolução Industrial”, que trouxe consigo a precarização, a plataformização e os novos formatos de emprego e trabalho que exigem atualização constante.

Ao mesmo tempo, pautas como igualdade de gênero, combate ao racismo e sustentabilidade ampliam o escopo da atuação sindical. Não se trata de dispersão, mas de reconhecer que a exploração assume múltiplas formas.

A luta continua sendo de classe. Mas suas expressões são mais complexas.

ENTRE A BUROCRACIA E A TRANSFORMAÇÃO

O maior risco para o sindicalismo contemporâneo é a burocratização. Quando se afasta da base e se limita à rotina institucional, perde legitimidade e capacidade de mobilização.

Por outro lado, quando investe em formação, organização e consciência, sobretudo a de classe, recupera sua potência histórica.

O sindicato pode ser cartório ou pode ser escola. Pode administrar demandas ou pode formar sujeitos políticos.

PAPEL QUE NÃO PODE SER ABANDONADO

Num país marcado por desigualdade estrutural — desequilíbrios e injustiças sociais crescentes —, o sindicalismo continua sendo uma das poucas instituições capazes de articular interesses coletivos a partir da base social.

Mas isso só será possível se assumir plenamente seu papel formador. Se voltar a ensinar, organizar e politizar. Se compreender que salário é apenas o começo, nunca o fim.

Sem consciência, não há transformação. E sem sindicato como escola de política, os trabalhadores, como classe social, permanece fragmentada, vulnerável e facilmente capturada.

O desafio está posto: ou o sindicalismo retoma sua vocação histórica, ou será reduzido a mero intermediário de perdas.

(*) Jornalista, analista político, assessor parlamentar do Diap e redator do HP

FONTE: DIAP

IMAGEM: REPRODUÇÃO TV TEM

Painel reuniu governo e setor privado em Manaus e apontou falhas de comunicação, entraves regulatórios e falta de integração como principais desafios

A ampliação do uso das hidrovias, a integração entre modais e a necessidade de maior segurança jurídica foram os principais pontos debatidos no painel sobre infraestrutura de transportes do Norte Export, realizado nesta quinta-feira (19), em Manaus.

O encontro reuniu representantes do governo e do setor privado, que apontaram gargalos estruturais, falhas de comunicação e entraves regulatórios como desafios para o avanço da logística na região Norte.

O secretário nacional de Hidrovias do Ministério de Portos e Aeroportos, Otto Burlier, afirmou que o Brasil ainda utiliza pouco seu potencial hidroviário e destacou a necessidade de melhorar a comunicação sobre os projetos do setor. “Por incrível que pareça, a gente usa muito pouco as nossas hidrovias. E o principal desafio hoje também é de comunicação, diante de tantas informações incorretas”, disse.

Segundo ele, mesmo com a revogação do decreto 12.600/2025, os estudos para concessões seguem em andamento, incluindo projetos nos rios Madeira, Tapajós e Tocantins. “A agenda não parou. Pelo contrário, sai fortalecida. Mas precisamos envolver toda a sociedade nessa discussão”, afirmou.

O diretor de Planejamento da Infra S.A., Cristiano Della Giustina, destacou que o principal gargalo da logística hoje está no acesso aos terminais, e não mais na capacidade portuária. “A gente acertou muito na expansão dos portos, mas agora o desafio é melhorar os acessos. É aí que entra a multimodalidade”, disse.

De acordo com ele, sem novos investimentos estruturantes, o Arco Norte pode perder participação no escoamento de cargas. “A gente precisa tirar projetos do papel e pensar infraestrutura como política de Estado, não de governo”, afirmou, citando projetos como a Ferrogrão e a Fiol.

A diretora de Institucional e Regulatório da Hidrovias do Brasil, Mariana Pescatori, afirmou que o avanço das concessões depende de maior diálogo com comunidades e de segurança jurídica. “Esse processo vai exigir mais tempo e mais resiliência, mas pode resultar em projetos mais estruturados, ouvindo demandas ambientais e sociais”, disse.

Ela também apontou dificuldades relacionadas ao licenciamento ambiental e à execução de dragagens. “A dragagem é essencial, mas muitas vezes esbarra em falta de segurança jurídica. Precisamos evoluir para garantir previsibilidade”, afirmou.

Já o presidente da FENOP e do Conselho do Norte Export, Sergio Aquino, afirmou que o principal entrave atual não está na operação portuária, mas no acesso da carga e na insegurança jurídica. “O problema hoje não é a operação portuária. Isso o setor privado já resolveu. O problema é fazer a carga chegar”, disse.

Segundo ele, decisões recentes do Judiciário têm gerado instabilidade e afetado o ambiente de investimentos. “Estamos enfrentando uma insegurança judicial tremenda. A cada momento, a lei é reinterpretada, e isso trava o desenvolvimento”, afirmou.

Aquino também defendeu a necessidade de políticas públicas mais estáveis e previsíveis para o setor. “Não podemos ficar reféns de quem está no governo ou de interpretações que mudam a regra do jogo”, disse.

O painel indicou ainda que a região Norte depende diretamente do transporte hidroviário e que o avanço das concessões, aliado à integração entre modais e à melhoria do ambiente regulatório, é apontado como caminho para ampliar a eficiência logística.

FONTE: BENEWS

IMAGEM: X.COM

A década de 2020 está se revelando um período brutal para os marítimos presos no mar – e, por extensão, para a dificuldade em garantir tripulações suficientes para o futuro. Primeiro veio a covid-19, juntamente com o número crescente de casos de abandono de tripulantes, além da crise marítima no Mar Vermelho, que já dura 865 dias. Agora, as Nações Unidas alertam que a atual crise de Ormuz – que já dura 34 dias – não tem precedentes no período pós-Segunda Guerra Mundial para os marítimos apanhados em zona de guerra. 

Cerca de 20.000 marinheiros ficaram presos no beco sem saída geográfico que é o Golfo Pérsico desde que a coalizão EUA/Israel iniciou sua guerra contra o Irã em 28 de fevereiro.

Uma situação semelhante ocorreu quando a guerra entre a Rússia e a Ucrânia eclodiu no início de 2022, embora em menor escala. Navios mercantes ficaram repentinamente presos em portos ucranianos enquanto mísseis caíam ao seu redor. 

Desde o início do conflito no Golfo Pérsico, ocorreram mais de 20 ataques a embarcações no estreito, com 10 marinheiros mortos e oito feridos.

“Não há precedentes para o encalhe de tantos marítimos na era moderna”, disse Damien Chevallier, diretor da Divisão de Segurança Marítima da Organização Marítima Internacional, em uma entrevista interna das Nações Unidas.

“É uma situação muito assustadora, e só podemos imaginar o estresse psicológico que eles estão passando”, disse Chevallier.

A IMO concluiu uma sessão extraordinária do seu conselho no mês passado, em Londres, para tratar da crise do Estreito de Ormuz. A sessão apoiou a criação de um corredor humanitário para evacuar os navios e marinheiros retidos, embora isso não tenha sido possível nas duas semanas que se seguiram ao término da reunião. 

O conceito de corredor inevitavelmente suscita comparações com a Iniciativa de Grãos do Mar Negro, que estabeleceu uma rota marítima protegida a partir da Ucrânia no início da guerra entre Rússia e Ucrânia. Esse mecanismo foi amplamente considerado eficaz para lidar com as pressões globais sobre a segurança alimentar, embora dependesse fortemente de garantias da ONU e da Turquia. 

“Se os marítimos não se sentirem seguros devido a conflitos como o que está acontecendo agora, será difícil atrair a próxima geração para atender às crescentes necessidades”, alertou Chevallier.

A Câmara Internacional de Navegação (ICS) e a Federação Internacional dos Trabalhadores em Transportes (ITF) reuniram-se com representantes dos Estados do Golfo no final do mês passado para abordar o conflito em curso e seu impacto direto sobre os marítimos e a navegação na região. As discussões centraram-se em iniciativas conjuntas urgentes e práticas, como o reabastecimento de navios. 

Stephen Cotton, secretário-geral da ITF, afirmou: “Os marítimos estão na linha de frente deste conflito e, neste momento, muitos enfrentam condições extremamente difíceis. É essencial que tenham acesso a alimentos, água potável, combustível e cuidados médicos. Estes não são opcionais; são direitos fundamentais. Ao mesmo tempo, nenhum marítimo deve ser obrigado a permanecer numa zona de conflito contra a sua vontade.”

A ITF recebeu mais de 1.000 e-mails e mensagens de marinheiros retidos no Estreito de Ormuz e na região circundante desde o início da guerra.

Como foi obrigada a fazer durante a era da covid, a Direção Geral de Navegação da Índia acaba de estender a validade dos certificados de tripulação por três meses para os marítimos retidos na região.

Escrevendo para a Splash no mês passado, Steven Jones, fundador do Índice de Felicidade dos Marítimos, observou: “Apesar de toda a estupidez, medo e frustração dos anos de pandemia, pelo menos havia a sensação de que alguém, em algum lugar, estava tentando ser benevolente, salvar vidas. As restrições eram severas, mas sua intenção era humanitária. Agora, as tripulações enfrentam violência sem motivo, perigo sem propósito e culpa sem justiça. O conflito pode muito bem superar a covid quando se trata de desestabilizar o equilíbrio do transporte marítimo.”

FONTE: SPLASH247.COM

 

IMAGEM: Igor Karasi / Shutterstock

Trump suspende a "Jones Act" por 60 dias — representantes do setor de transporte marítimo dizem que isso não ajudará a baixar os preços da gasolina.

A Casa Branca aprovou uma isenção de 60 dias, dando continuidade a uma política controversa que, segundo alertaram os representantes do setor naval americano há poucos dias, pouco contribuiria para a redução dos preços dos combustíveis — e que agora gera novas críticas por parte de grupos trabalhistas do setor marítimo.

A secretária de imprensa Karoline Leavitt confirmou a decisão na terça-feira, afirmando que a isenção visa mitigar as interrupções de curto prazo no mercado de petróleo, enquanto as forças americanas continuam as operações ligadas à Operação Epic Fury contra o Irã.

A isenção temporária permite que embarcações com bandeira estrangeira transportem petróleo, gás natural liquefeito, fertilizantes, carvão e outras mercadorias essenciais entre portos dos EUA, abrindo efetivamente o comércio costeiro doméstico ao transporte marítimo internacional pelos próximos dois meses.

A medida amplia uma proposta anterior, apresentada na semana passada, para uma isenção de 30 dias e representa uma das isenções emergenciais mais significativas da Lei da Marinha Mercante de 1920 nos últimos anos. Esperava-se que a isenção fosse concedida com base na Seção 501(a) da lei, que permite ao governo autorizar que navios estrangeiros transportem carga doméstica quando isso for considerado “necessário no interesse da defesa nacional para lidar com um efeito adverso imediato sobre as operações militares”.

O secretário de Energia dos EUA, Chris Wright, afirmou que a suspensão da Lei em questão "garante que o petróleo e outros recursos energéticos cheguem aos americanos em todo o país, mesmo em períodos de interrupção".

“Isso ajudará a amenizar os impactos de curto prazo nos preços do mercado de petróleo, enquanto trabalhamos diariamente para reduzir os preços e aumentar os salários dos americanos”, acrescentou.

Reação da indústria

A oposição da indústria foi imediata e agora está se ampliando.

Em uma declaração conjunta, nove organizações de trabalhadores marítimos, incluindo a Marine Engineers' Beneficial Association (MEBA), a Sailors' Union of the Pacific (SUP) e o Transportation Trades Department (TTD) da AFL-CIO, reagiram veementemente à decisão.

“Quando justificado e no interesse nacional, o movimento trabalhista marítimo já apoiou isenções específicas da Lei Jones, mas esta medida abrangente não atende a esse padrão”, afirmaram os grupos. “Em vez disso, esta isenção abrangente prejudicará a segurança nacional e afetará negativamente a força de trabalho marítima americana em um momento instável para o nosso país. Sabemos que esta decisão não reduzirá os preços da gasolina nem beneficiará os consumidores, mas sim as empresas de navegação estrangeiras.”

A declaração também levantou preocupações de segurança relacionadas ao conflito em curso no Oriente Médio.

“Num momento de acentuada instabilidade global, em que marinheiros americanos estão sendo alvejados no Golfo Pérsico e áreas adjacentes, e a abertura das vias navegáveis ​​dos EUA a adversários estrangeiros, uma isenção geral da Lei Jones coloca ainda mais em risco a segurança dos Estados Unidos em mar aberto”, afirmaram os grupos. “Além disso, tal ação apenas permitiria o abuso das leis de cabotagem do nosso país e enviaria um sinal prejudicial sobre o compromisso da nação em manter uma indústria marítima e uma força de trabalho americanas fortes.”

A resposta dos trabalhadores segue alertas semelhantes de grupos do setor. "Estamos profundamente preocupados com o abuso dessa ampla isenção de 60 dias, que pode levar ao deslocamento desnecessário de trabalhadores e empresas americanas", afirmou a American Maritime Partnership, uma coalizão que representa a indústria marítima nacional dos EUA. "A lei estabelece um padrão elevado: essa isenção existe unicamente para lidar com uma ameaça imediata às operações militares, não para deslocar trabalhadores americanos ou beneficiar operadores estrangeiros."

O grupo reiterou ainda que a política teria um impacto mínimo nos preços dos combustíveis.

“O impacto potencial máximo do transporte doméstico no custo da gasolina em todo o país é inferior a um centavo por galão”, afirmou a AMP.

A decisão de suspender a lei de navegação ocorre menos de uma semana depois que sindicatos marítimos e operadores de navios-tanque dos EUA instaram o governo a não prosseguir com a suspensão, argumentando que a política teria um impacto mínimo nos preços da gasolina, ao mesmo tempo que prejudicaria o transporte marítimo doméstico. Os grupos alertaram que qualquer economia marginal resultante da suspensão provavelmente não chegaria aos consumidores e, em vez disso, criaria oportunidades para operadores de bandeira estrangeira que evitam impostos nos EUA e dependem de mão de obra mais barata.

A Associação de Serviços Marítimos Offshore (OMSA) também alertou que a medida poderia ter consequências econômicas negativas. "Suspender a Lei Jones na tentativa de lidar com o aumento dos preços dos combustíveis não funcionará e colocará em risco empregos americanos, a arrecadação de impostos dos EUA e o futuro da indústria marítima americana", disse o presidente da OMSA, Aaron Smith. Ele acrescentou que depender de embarcações estrangeiras para transportar o suprimento de energia doméstica "não é uma solução — é uma vulnerabilidade".

Restaurando o domínio marítimo

A isenção da "Jones Act" surge num momento em que o Presidente Trump pressiona para restaurar a supremacia marítima dos Estados Unidos — uma direção política que, segundo alguns, está agora sendo minada pelas próprias ações da administração.

“Sempre que a Lei Jones é suspensa, isso envia um sinal às empresas que consideram investir em embarcações, estaleiros e mão de obra americana”, disse Smith. “Se o objetivo é fortalecer a capacidade marítima e a resiliência da cadeia de suprimentos dos Estados Unidos, os formuladores de políticas deveriam estar reforçando essa base, e não enfraquecendo a confiança nela.”

Os operadores de navios-tanque fizeram coro com essas preocupações, apontando para as condições atuais do mercado de frete.

Em uma análise recente, Sam Norton, CEO do Overseas Shipholding Group, afirmou que substituir navios-tanque da Lei Jones por embarcações de bandeira estrangeira  poderia, na verdade, aumentar os custos de transporte . "Substituir um navio-tanque de bandeira estrangeira em uma rota doméstica atualmente atendida por um navio-tanque da Lei Jones provavelmente resultaria em um aumento no custo do combustível entregue", escreveu Norton, citando as tarifas mais altas de navios-tanque internacionais.

Primeiros jogos

Os primeiros indícios sugerem que a isenção já está remodelando o transporte marítimo costeiro dos EUA, com os afretadores recorrendo rapidamente a navios-tanque MR de bandeira estrangeira para viagens domésticas, incluindo algumas com custos de frete mais elevados, de acordo com a empresa de inteligência de energia e commodities Argus .

Um dos contratos de frete relatados previa o  transporte do PIS Kalimantan  da Costa do Golfo dos EUA até Jacksonville por cerca de US$ 6,74 por barril — bem acima das taxas típicas da Lei Jones no início deste mês. Outro contrato, para uma viagem de Nova York ao Havaí, foi relatado por um valor próximo a US$ 22 por barril, refletindo os preços elevados dos mercados globais de frete.

“A disponibilidade imediata de navios para embarques rápidos no estilo da Lei Jones — um mercado dominado por afretamentos a tempo de longo prazo e oferta restrita de embarcações — após o lançamento das isenções provavelmente criou fortes oportunidades de arbitragem para os afretadores”, afirmou a análise da Argus. “Isso ocorre apesar dos custos de frete mais altos, pelo menos inicialmente, em algumas rotas, já que a demanda internacional permanece elevada, com os compradores se esforçando para garantir embarques após a paralisação quase total dos fluxos no Golfo Pérsico.”

A associação American Waterways Operators afirmou que a abrangência da isenção é particularmente preocupante. "Permitir que embarcações estrangeiras transportem carga em vias navegáveis ​​americanas introduzirá a volatilidade de preços do mercado internacional atual em nosso comércio interno, criando instabilidade em nossa próspera cadeia de suprimentos nacional e prejudicando empregos americanos, sem ter nenhum efeito apreciável no preço da gasolina", declarou a associação.

Preços da energia em ascensão

A isenção ocorre em um momento em que o petróleo WTI se aproxima dos US$ 100 por barril, ante cerca de US$ 70 no início do mês, após os ataques dos EUA e de Israel contra o Irã e a escalada das tensões geopolíticas no Oriente Médio continuarem a perturbar os mercados globais de energia. O aumento de mais de 40% no início de março marca os níveis de preço mais altos desde 2022.

Ao mesmo tempo, a navegação pelo Estreito de Ormuz permanece severamente prejudicada, com o tráfego praticamente paralisado após semanas de ataques com mísseis e drones contra embarcações comerciais. Essa interrupção elevou drasticamente as taxas de frete de petroleiros e os prêmios de risco de guerra, aumentando ainda mais a pressão sobre as cadeias globais de suprimento de energia.

Autoridades argumentam que a isenção poderia ajudar a aliviar os gargalos regionais de abastecimento, particularmente ao longo da costa leste dos EUA, permitindo que uma gama maior de embarcações transportasse combustível das refinarias da Costa do Golfo.

No entanto, diversas análises sugerem que o impacto nos preços dos combustíveis para o consumidor provavelmente será insignificante.

Um estudo da Navigistics Consulting estimou que, mesmo no melhor cenário possível, a política reduziria os preços da gasolina em menos de um centavo por galão — aproximadamente US$ 0,0027 — se toda a economia fosse repassada aos consumidores.

O impacto limitado reflete a parcela relativamente pequena da gasolina americana transportada por navios-tanque oceânicos. De acordo com a análise, apenas cerca de 6,5% do abastecimento é transportado por embarcações regidas pela Lei Jones, sendo a maior parte do combustível entregue por meio de oleodutos, caminhões e outras infraestruturas.

Os defensores da isenção, incluindo o senador Ted Cruz, argumentam que a medida é necessária para garantir o livre fluxo de energia e bens essenciais durante uma crise de segurança nacional desencadeada por interrupções no Estreito de Ormuz.

Os críticos, no entanto, afirmam que a decisão evidencia uma discrepância recorrente entre as expectativas políticas e a realidade do mercado.

“Decisões políticas baseadas em suposições em vez de realidades de mercado correm o risco de causar mais mal do que bem”, escreveu Norton.

Com a entrada em vigor da isenção, o governo aposta que uma maior flexibilidade na logística de transporte marítimo doméstico poderá ajudar a estabilizar os mercados — mesmo que os dados do setor sugiram que os principais fatores que influenciam os preços dos combustíveis continuem sendo globais.

FONTE: GCAPTAIN

IMAGEM: FECOMÉRCIO SP/TUTU

São ganhos reais que dominam o cenário no início do ano. Essas negociações salariais começaram em 2026 em patamar elevado para os trabalhadores. É o que revela o boletim do Dieese “De Olho nas Negociações” # 66, de março, cujos resultados vão até fevereiro.

Os dados do Dieese indicam que 89,1% dos reajustes registrados no primeiro trimestre superaram a inflação medida pelo IBGE por meio do INPC (Índice Nacional de Preços ao Consumidor).

Outros 8,1% ficaram exatamente no índice inflacionário, enquanto apenas 2,8% resultaram em perdas reais. O resultado marca inflexão relevante frente ao desempenho acumulado das últimas 12 datas-bases, quando 77% dos acordos haviam garantido ganhos acima da inflação.

Desempenho robusto, apesar de sinais de desaceleração

Mesmo com o quadro positivo, os dados revelam nuances. Em fevereiro, houve aumento dos reajustes abaixo da inflação — de 2,2% em janeiro para 7,8% — e redução da variação real média, de 1,92% para 1,44%.

Ainda assim, o mês manteve desempenho entre os melhores do último ano, consolidando tendência de recuperação do poder de compra via negociação coletiva.

Outro indicador reforça essa dinâmica: quase a totalidade dos reajustes foi aplicada integralmente na data-base, com apenas 0,9% parcelados e 7% escalonados conforme faixa salarial ou porte das empresas.

Serviços lideram, comércio fica para trás

A análise setorial evidencia desigualdades. O setor de serviços desponta como principal motor dos ganhos reais, com 91,7% das negociações acima da inflação. Praticamente empatado com a indústria (91,6%).

Na outra ponta, o comércio apresentou desempenho mais fraco, com apenas 66,7% dos reajustes superando o INPC. O setor rural concentrou o maior percentual de perdas reais (21,1%), revelando maior fragilidade nas negociações.

Em termos de ganho médio, os serviços também lideram (2,11%), seguidos por indústria (1,73%), comércio (1,15%) e setor rural (1,09%).

Regiões periféricas surpreendem

O recorte regional mostra dado relevante: Norte e Nordeste registraram os melhores resultados proporcionais, com 92% dos reajustes acima da inflação em ambas as regiões.

A variação real média foi mais elevada no Sudeste (2,13%), enquanto o Norte apresentou o menor ganho médio (1,41%).

Ainda assim, todas as regiões superaram o desempenho médio do ciclo anterior, indicando melhora disseminada.

Pisos salariais ainda limitam avanço

Apesar do ganho real nos reajustes, o patamar dos pisos salariais segue baixo. No primeiro bimestre de 2026, o valor médio foi de R$ 1.817, com mediana de R$ 1.704, abaixo dos níveis registrados no acumulado das últimas 12 datas-bases.

O setor de serviços lidera também nesse indicador, com piso médio de R$ 1.860, enquanto os maiores valores regionais aparecem no Sul, tanto na média (R$ 1.936) quanto na mediana (R$ 1.900).

Recuperação parcial ou novo ciclo?

Os dados indicam recuperação importante do poder de compra dos trabalhadores, impulsionada por negociações coletivas mais favoráveis e menor pressão inflacionária recente.

No entanto, o quadro ainda é heterogêneo. Setores como comércio e rural seguem mais vulneráveis, e os pisos salariais continuam limitando o impacto distributivo dos reajustes.

Avanço e limites estruturais

O resultado de 2026 reforça o papel das negociações coletivas como instrumento central de recomposição salarial. Mas também evidencia seus limites: ganhos reais expressivos convivem com baixos salários e desigualdades setoriais.

No fundo, os números revelam paradoxo recorrente no mercado de trabalho brasileiro: melhora conjuntural sem ruptura estrutural. A renda cresce, mas ainda sobre base estreita.

E é nesse intervalo entre avanço e insuficiência que se desenha o próximo capítulo das disputas por valorização do trabalho no País.

FONTE: DIAP

IMAGEM: REPRODUÇÃO

Trata-se de marco histórico finalmente formalizado, que o Congresso Nacional promulgou nesta terça-feira (17). O acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia encerra ciclo de negociações que se arrastava há mais de 2 décadas.

A medida representa um dos mais ambiciosos tratados já firmados pelo bloco sul-americano e sinaliza uma tentativa de reposicionar o Brasil no comércio internacional.

A promulgação consolida o aval político interno necessário para a implementação do acordo, embora a plena entrada em vigor ainda dependa de etapas adicionais nos países europeus.

“Estamos diante de uma mudança estrutural na inserção internacional do Brasil. O acordo amplia mercados e redefine padrões de competitividade”, afirmou o embaixador Carlos França.

Abertura de mercados e novas regras

O tratado prevê a redução gradual de tarifas para ampla gama de produtos, e beneficia especialmente setores do agronegócio, como carnes, açúcar, etanol e grãos. Em contrapartida, o Brasil e os demais países do Mercosul terão de abrir os respectivos mercados industriais a produtos europeus, tradicionalmente mais competitivos.

Além das tarifas, o acordo estabelece regras em áreas como propriedade intelectual, compras governamentais, serviços e barreiras sanitárias e fitossanitárias, o que exigirá adaptações regulatórias relevantes.

“Não se trata apenas de comércio. É um acordo que mexe com padrões produtivos, exigências ambientais e regras de concorrência”, avaliou a professora de comércio exterior Vera Thorstensen.

Impactos para a economia brasileira

O governo e setores exportadores celebram o acordo como oportunidade de expansão econômica e diversificação de mercados. A União Europeia, um dos maiores blocos econômicos do mundo, representa destino estratégico para produtos brasileiros de maior valor agregado.

Por outro lado, segmentos da indústria nacional demonstram preocupação com a concorrência europeia, temendo perda de espaço no mercado interno.

“Há ganhos evidentes para o agro, mas a indústria precisará de políticas de adaptação para não sofrer desindustrialização”, alertou o economista José Augusto de Castro, presidente-executivo da AEB (Associação de Comércio Exterior do Brasil).

Cláusulas ambientais e pressão internacional

Um dos pontos mais sensíveis do acordo diz respeito às exigências ambientais. Países europeus pressionaram pela inclusão de compromissos mais rígidos relacionados à preservação ambiental e ao combate ao desmatamento, especialmente na Amazônia.

Essas cláusulas têm sido alvo de debate interno, dividindo opiniões entre aqueles que veem nessas oportunidades de modernização e os que apontam riscos à soberania nacional.

“A agenda ambiental deixou de ser periférica e passou ao centro das relações comerciais. Ignorar isso tem custo econômico direto”, afirmou o analista internacional Oliver Stuenkel, professor da FGV em São Paulo e pesquisador do Carnegie Endowment.

Geopolítica e reposicionamento

A promulgação do acordo ocorre em contexto global de reconfiguração das cadeias produtivas e tensões comerciais entre grandes potências. Nesse cenário, o pacto Mercosul-União Europeia é visto como tentativa de reduzir dependências e ampliar parcerias estratégicas.

Para o Brasil, o movimento também tem dimensão diplomática, ao sinalizar compromisso com regras multilaterais e integração econômica.

“O acordo é, ao mesmo tempo, econômico e geopolítico. Ele redefine alianças e reposiciona o Brasil no tabuleiro global”, disse o ex-chanceler Aloysio Nunes Ferreira, Chefe de Assuntos Estratégicos do escritório da Apex, em Bruxelas.

Desafios de implementação

Apesar da promulgação, especialistas apontam que os efeitos concretos dependerão da capacidade de implementação e adaptação interna. Infraestrutura, produtividade, inovação e ambiente regulatório serão fatores decisivos para que o País aproveite plenamente os benefícios do acordo.

“A assinatura é apenas o começo. O verdadeiro impacto virá da capacidade de o Brasil competir em um ambiente mais aberto e exigente”, resumiu o consultor em comércio internacional Welber Barral.

FONTE: DIAP